O Evangelho é relacional: atuando de forma intencional nos relacionamentos para evangelizar e discipular pessoas

O evangelho é relacional: atuando de forma intencional nos relacionamentos para evangelizar e discipular pessoas

Leonardo Rodrigues[1]

Resumo

Este artigo apresenta conceitos de aprendizagem e prática sobre o evangelismo e discipulado relacional, obtendo como base o modelo de Jesus. O objetivo é informar a importância dos relacionamentos como início, desenvolvimento e preparo de pessoas para a grande comissão. O artigo aborda temas como gerações, contextualização e a preservação da mensagem do evangelho nesse processo de evangelismo e discipulado, o que não deve ser apenas um programa, mas um estilo de vida de cada cristão.

Palavras-chave

Discipulado, evangelismo, método, Jesus, desenvolvimento, gerações e relacionamento.

Introdução

A grande comissão descrita no evangelho segundo escreveu Mateus, manifesta claramente o objetivo de Jesus para aqueles que são chamados de seus discípulos. O discipulado consiste em uma caminhada duradoura, em que o mestre tem como responsabilidade e propósito reproduzir em seu aluno suas ideias, sua missão, seu caráter e sua causa. Jesus como mestre enfatizou e demonstrou a importância desse relacionamento intencional ao caminhar integralmente com 12 homens em um período de 3 anos. O resultado desse relacionamento profundo se tornou tão eficaz ao ponto de se passarem mais de 2 mil anos e a mensagem alcançar milhares de pessoas diariamente. Ao decorrer de todo esse tempo, muitas coisas mudaram. O avanço tecnológico e as mudanças tão drásticas fazem com que seja necessário entender a nova geração de forma minuciosa, para que esse processo de discipulado continue acontecendo com os jovens e adolescentes. O evangelho não consiste apenas em uma porta, mas também em um caminho que irá ser percorrido por todo aquele que estiver disposto, ou seja, o evangelismo que é o convite inicial deve caminhar junto com o discipulado, que é o processo de desenvolvimento de um aluno até que se torne como o mestre.

  1. O método de Jesus

Jesus sempre teve clareza a respeito de sua missão aqui na terra. Sua obediência e submissão ao Pai foram fatores essenciais para que os seus feitos extraordinários pudessem ser realizados. Apesar de muitos o conhecerem por seus milagres e maravilhas, nada foi tão impactante quanto a forma em que Jesus se relacionou com as pessoas. As palavras compaixão e amor faziam parte da vida diária de Jesus. Phillips[2]  (2008, p. 148) expressa bem essa característica:

O texto de Mateus 8.2-4 relata a história de um leproso[3] que procurou Jesus para ser curado. O Senhor teve profunda compaixão desse homem a quem tinha sido negado o toque humano ou o amor físico durante a maior parte de sua vida. Jesus sabia que a família e os vizinhos desse homem o abandonaram temendo também ficar doentes. Jesus poderia ter curado esse leproso ficando a uns 50 metros de distância e simplesmente proferindo a palavra. Mas o leproso precisava da cura emocional. Movido por compaixão, Jesus tocou o leproso.

Em  sua essência Jesus era esse homem. O que se assentava à mesa com pecadores e publicanos, que ia à casa de ladrões como Zaqueu e constantemente estava rodeado de pessoas.

1.1 A escolha dos 12 discípulos e a intencionalidade de Jesus

Mesmo  com todo poder e autoridade que lhe fora outorgado, Jesus decidiu caminhar com pessoas com o objetivo de treiná-las para darem continuidade aqui na terra a sua missão, os quais denominamos apóstolos[4] ou discípulos de Cristo. Como um rio que flui naturalmente e não cessa, a mensagem do evangelho precisaria se espalhar através dos homens que sob oração Jesus escolhera, conforme está escrito no evangelho segundo Lucas, capítulo 6:12-16. Na escolha do seu time Jesus não utilizou do olhar humano que sempre se inclina para as habilidades ou dons. Não se pode negar o fato de que Jesus foi intencional em sua escolha, pois ao observar as personalidades de cada discípulo veremos extremas diferenças que eram importantes na execução da tarefa. Após a escolha dos 12, Jesus estava certo que a caminhada apenas havia iniciado. O processo de discipulado requer tempo, dedicação, compromisso e convicção da parte do discípulo e também do mestre. Naturalmente, aqueles homens não dariam continuidade à missão de Jesus porque por si mesmo não teriam capacidade, mas o papel do mestre entra justamente quando decide se relacionar de forma tão profunda e se compromete a capacitar, ensinar e orientar seus discípulos antes de enviá-los. O questionamento para a igreja atual deve ser o seguinte: “Existe disposição em treinar, capacitar e orientar as pessoas para que elas se tornem discípulos de Jesus independente do tempo em que isso se faça necessário?” e a preocupação deve estar justamente se as igrejas estão lotadas de pessoas simplesmente ou lotadas de discípulos. Phillips  (2008, p. 9) diz:

Jesus  veio salvar a humanidade decaída e levantar um povo que o louvasse para sempre. Ao desempenhar essa missão, ele ministrou entre nós como servo, cuidando dos doentes, curando os abatidos pela dor e pregando o evangelho às multidões. Mas, em tudo isso, ele concentrou a atenção em fazer discípulos – pessoas que aprendessem dele e seguissem seus passos.

A  ideia acima é reforçada após uma pesquisa ser realizada por líderes de mais de 54 países a respeito da definição discipulado, a conclusão foi a seguinte, escreve Garrison  (2015, p. 10)

Enquanto  existirem diferenças válidas de perspectiva sobre o que constitui o discipulado, nós o definiremos como um processo que acontece dentro de relacionamentos por um período de tempo com o propósito de trazer os cristãos a uma maturidade espiritual em Cristo. Exemplos bíblicos sugerem que o discipulado é tanto relacional quanto intencional, ambos posição e processo.

  1. Discernindo as gerações

O mundo muda de forma drástica e rapidamente a cada dia que passa. Dividimos  as gerações por idades e nomes e de acordo com Casarotto (2020) essa separação acontece da seguinte forma:

Geração Baby Boomers: nascidos entre 1940 e 1960 (atualmente com 60 a 80 anos); Geração X: nascidos entre 1960 e 1980 (atualmente com 40 a 60 anos); Geração Y (millennials): nascidos entre 1980 e 1995 (atualmente com 25 a 40 anos); Geração Z: nascidos entre 1995 e 2010 (atualmente com 10 a 25 anos) e Geração Alpha: nascidos a partir de 2010 (atualmente com até 10 anos).

Discernir as gerações para se relacionar com elas fará toda a diferença no processo de evangelização e discipulado. Cada geração foi marcada profundamente por um acontecimento, pode-se dizer que a geração Alpha está sendo marcada justamente pelo Covid-19 e que isso acarretará em muitas consequências, o que desafia pais, líderes, professores e influenciadores a saberem lidar com tal público. Gary Chapman[5] (2018, p. 17) vai dizer algo importante sobre as gerações:

Até uns setenta anos atrás, de certa forma os adolescentes nem existiam. Só foram considerados uma faixa etária distinta no passado recente. O termo “adolescente” começou a se popularizar na época da Segunda Guerra Mundial.

Obter essa informação é de grande valia para líderes de igreja por exemplo, em que algumas são até conhecidas pelo seu trabalho realizado através e para a juventude. Você consegue imaginar atualmente o termo “adolescente” sendo extinguido? Isso seria estranho demais para a nossa geração. Apesar de algumas necessidades básicas de cada público não mudarem, o mundo muda constantemente, nos desafiando a buscar novas estratégias para lidar com uma nova realidade e diferentes pessoas.

2.1 A importância da mensagem e sua contextualização

Quando se entende a importância de discernir as gerações, o próximo passo será buscar a melhor forma de comunicar o evangelho a eles. Os relacionamentos se tornam mais eficazes quando a comunicação é clara. Jesus usou de um método extraordinário para comunicar o evangelho em muitos momentos de seu ministério utilizando de suas diversas parábolas. As parábolas eram histórias contadas por Jesus para transmitir uma mensagem de modo que um povo de determinada cultura se familiarizasse com o que ele estava dizendo. Em outras palavras, Jesus utilizou de recursos, como a dracma perdida, ou de personagens, como a ovelha perdida e o filho pródigo, para explicar o amor do Pai pelos perdidos. Um ponto muito importante a respeito da contextualização é que a mensagem não pode ser alterada e sim aplicada à realidade do público alvo. Madaleno[6] (2017, p. 198) diz o seguinte sobre esse tópico:

Uma das principais tragédias no ministério com a juventude é ter barulho e ser envolvente, criativo e contextualizado, mas sem nenhum conteúdo ou com uma mensagem rala e contaminada. Não tente ajudar a Deus, nem ouse substituí-Lo. Todas as respostas para o ministério com a juventude e para a pregação estão na Bíblia (…)

O objetivo da contextualização de uma pregação é tornar a mensagem mais clara e entendível ao ouvinte, em contrapartida, não se pode abrir mão da profundidade e de aplicar os princípios que foram estabelecidos pela palavra de Deus.

  1. O evangelismo como estilo de vida

O apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos descreveu bem a necessidade do evangelismo quando disse: “A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Romanos 8:19”. As pessoas estão sedentas por esperança que não se esvai. A igreja precisa compreender a urgência do evangelismo se tornar um estilo de vida e não apenas um programa ou evento da denominação. A respeito disso Bonnke[7] (2015, p. 58) escreve:

As necessidades do mundo são suficientemente vastas para que todos possam vê-las, e seria necessário um livro inteiro para descrever todas elas. Se alguma coisa pode ajudar os ais do globo, o Evangelho ocupa o topo da lista. Pregar o Evangelho é libertar, enquanto retê-lo é prender. Não pregar o Evangelho significa esconder o remédio do paciente.

O desejo de Deus é que seus filhos despertem de forma radical e compartilhem diariamente da mensagem do evangelho em todas as esferas de relacionamentos possíveis.

3.1 Evangelismo e discipulado caminham juntos

Se o evangelismo é uma urgência para a igreja, o discipulado vem na sequência com o mesmo senso. O objetivo de Jesus não é que alguém apenas dê um sim inicial para Ele, mas que diariamente essa pessoa desenvolva o hábito de se submeter e obedecer à sua palavra, tal processo se chama discipulado. Alton Garrison faz uma citação do Dr. John Perkins[8] (2015, p. 10) que diz:

Nós evangelizamos o mundo de forma muito superficial. Quando perguntado sobre o significado da frase, ele disse que o evangelismo, na verdade, provoca o efeito contrário ao propósito de Deus para a igreja quando ele não está em conjunto com o discipulado. Evangelismo e discipulado deveriam ser um par inseparável.

Keith Phillips reafirma a ideia acima após viver uma experiência ruim de evangelismo sem discipulado quando diz: “A comissão de Cristo para a sua Igreja não era fazer convertidos, mas sim fazer discípulos .”

A ideia central consiste em que um relacionamento se inicia através do evangelismo, de modo que continua através do discipulado até que o discípulo esteja maduro o suficiente para reproduzir o processo com outro, sendo assim se cumpre o que está descrito em 2 Timóteo 2:2.

Conclusão

Na tarefa de cumprir com a grande comissão, o maior anseio deve ser imitar os passos do mestre Jesus. Ele se relacionou de forma humilde, ao ponto de se tornar servo e ensinando aos outros com o seu próprio exemplo o que é viver uma vida piedosa diante de Deus. Jesus deixa claro através do seu estilo de vida que se doar pelo outro sem esperar nada em troca, ter um amor e uma atitude de altruísmo para com o próximo faz parte desse processo de evangelismo e discipulado. A igreja, espalhada por todo o mundo, precisa compreender que os relacionamentos profundos e saudáveis são ferramentas essenciais na formação de um cristão e que conduzir um novo convertido à maturidade espiritual é o objetivo final. Esse processo se dá início quando uma pessoa compreende verdadeiramente o que é ser um discípulo de Cristo, deste modo, obtém o seu caráter, o seu modo de pensar e vive pela sua missão, com a finalidade de gerar em outros o mesmo sentimento. O livro de Atos dos Apóstolos demonstra fielmente características da igreja primitiva e uma delas era a comunhão. Vínculos fortalecidos reproduz de forma natural o amor, o cuidado, o sentimento de pertencimento e naturalmente o crescimento numérico e qualitativo.

Bibliografia

PHILLIPS, Keith W. A formação de um discípulo. São Paulo: Editora Vida, 2008.

GARRISON, Alton. Discípulo 360°. Rio de Janeiro: BV Books, 2015.

BONNKE, Reinhard. Evangelismo por fogo: acendendo sua paixão pelo perdido. Belo Horizonte: Bello Publicações, 2015.

CHAPMAN, Gary. As 5 linguagens do amor dos adolescentes: como expressar um compromisso de amor a seu filho adolescente. São Paulo: Mundo Cristão, 2018.

FIELDS, Doug. Um ministério com propósito para líderes de jovens. São Paulo: Editora Vida, 2006.

CASAROTTO, Camila. Dossiê das gerações: o que são as gerações Millennials, Genz, Alpha e como sua marca pode alcançá-las. Rock Content, 2020. Disponível em: <https://rockcontent.com/br/blog/dossie-das-geracoes/>. Acesso em: 28/06/21.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo de NVI. São Paulo: Editora Vida, 2003.


[1] Bacharelando em Teologia pelo Seminário do Betel Brasileiro.

[2] Keith Phillips é presidente da World Impact, organização dedicada a missões urbanas nas periferias dos Estados Unidos da América. Bacharel em Artes pela University of California (UCLA); mestre em Divindade e doutor em Ministério pelo Fuller Theological Seminary; doutor em Letras pela John Brown University e também pelo Sterling College. Há quarenta e dois anos Keith Phillips cuida de pessoas, de origens e situações de pobreza das mais diversas.

[3] A Bíblia, especialmente no Velho Testamento, fala muitas vezes sobre o problema de lepra. Quando se fala de pessoas leprosas, a palavra significa uma doença da pele, e pode abranger tipos diferentes de doenças. Em outros casos, a mesma palavra fala de manchas em roupas ou paredes, algo que nós poderíamos chamar hoje de fungo ou mofo. Na lei que Deus deu aos israelitas, uma pessoa leprosa foi considerada imunda (Levítico 13:2-3). A doença foi vista como uma praga. Às vezes, a praga foi enviada por Deus para repreender o povo desobediente (Levítico 14:34)

[4] Apóstolo significa enviado com uma missão especial.

[5] Gary Chapman é um pastor batista, conselheiro matrimonial e escritor estadunidense.

[6] Pastor do Ministério Jovem (Eleve) na Igreja da Cidade de São José dos Campos.

[7] Reinhard Bonnke foi um evangelista pentecostal alemão, conhecido principalmente por suas missões evangélicas em toda a África e por ter sido o fundador e líder do Christ for all Nations, um ministério evangelístico internacional. Cerca de 75 milhões de pessoas se converteram através do ministério de Bonkke.

[8] Traduzido do inglês-John M. Perkins é um ministro cristão americano, ativista dos direitos civis, professor da Bíblia, autor de best-sellers, filósofo e desenvolvedor de comunidades.

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  1. Legal a introdução 👍😁

    Legal a introdução 👍😁

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