Das Kapital Evangelical (Igreja Evangélica do Capital): Breve Reflexão sobre a pregação capitalista na prática eclesiástica da igreja evangélico-protestante brasileira

Das Kapital Evangelical (Igreja Evangélica do Capital): Breve Reflexão sobre a pregação capitalista na prática eclesiástica da igreja evangélico-protestante brasileira

por

José Ribeiro Neto

Pastor da Igreja Batista do Vale, Vale das Virtudes, SP. Diretor Pedagógico do Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini. Doutorando e Mestre em Estudos Judaicos pela Universidade de São Paulo, Mestre em Teologia Bíblica do Antigo Testamento pelo Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini.

 Karl Marx (1818-1883) escreveu uma das obras mais debatidas de todos os tempos Das Kapital (O Capital), cujo primeiro volume foi lançado em 1867 e é considerada a obra mais importante do pensamento marxista.

Embora as ideias de Marx nunca conseguiram ser aplicadas em um sistema político-econômico com sucesso[1], é evidente que o pensador deixou seu legado no pensamento filosófico, político, econômico e até mesmo artístico de muitos pensadores e admiradores.

Podemos como protestantes discordar de Marx em seu ateísmo, embora até pareça que ele tenha emprestado algumas ideias bíblicas de justiça social, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento.[2] Não podemos negar, contudo, que ele foi um grande pensador e analisou profundamente o sistema capitalista e suas injustiças. Podemos até dizer que foi um “profeta tardio”, que ao estudar a estrutura social capitalista acabou prevendo alguns dos resultados que experimentamos hoje.

Não sou nenhum especialista em marxismo, capitalismo, socialismo ou qualquer outro sistema econômico, nem mesmo entendo de política ou sociologia a não ser o básico que nos é ensinado no ensino médio, depois na graduação e pós-graduação.[3] Contudo, observando o estado caótico desses nossos dias comecei a pensar: Qual será o sistema político-econômico do fim dos tempos, de acordo com as Escrituras, e no que se assemelha ao comportamento evangélico-protestante do nosso Brasil do século XXI?

Não há dúvida, o sistema político-econômico do fim dos tempos será algo parecido com a estrutura de compra e venda contemporânea, fundamentada na exploração do comércio e com uma forte ênfase ao consumismo desenfreado67, (Ap 18.3, 11)  este sistema, do qual o anticristo será o grande líder político e terá apoio do falso profeta, que será o grande líder religioso tem uma cidade ou nação, ainda em debate entre os estudiosos de escatologia sobre sua real identidade, é denominada no livro das Revelações, o Apocalipse, de A Grande Babilônia (Ap 18.2), …a mãe das prostituições e abominações da terra. (Ap 17.5).

O que me estranha é que os meios evangélicos, principalmente de linha neopentecostal, não diferem muito em suas práticas eclesiológicas e nem em seus “apelos de fé” aos sistemas capitalistas do mundo contemporâneo.

O “evangelho” pregado pela grande maioria das denominações evangélicas, excluíndo as igrejas chamadas históricas e poucas outras denominações que ainda não incorporaram o sistema Das Kapital Evangelical (Igreja Evangélica do Capital), é um sistema que se assemelha em muito às promessas dos comerciais de produtos do mundo capitalista.

Os “testemunhos” que são veiculados pelas grande mídia evangélica são relatos de pessoas que estavam em dificuldades financeiras e que através de uma “campanha” (feita pela denominação) obtiveram sucesso financeiro.

Em uma dessas denominações as “propagandas” veiculadas mostram bens de consumo ao fundo (carros importados, casas luxuosas, etc), característicos do ideal de vida capitalista, “vendendo” a ideia de que aqueles que estão em situações socio-econômicas difíceis devem usar a sua fé nas campanhas daquela denominação, então, terão suas vidas financeiras resolvidas, prosperarão, serão abençoadas por Deus.

É notório, tais denominações conseguem encontrar versículos bíblicos para todas as suas campanhas, embora pouco se veja a Bíblia na mão dos seus pregadores e muito menos entre seus membros. Mas como

                                                                                                                     

possível.

67 Se terá o nome de capitalismo ou não, não sabemos

é necessária a fundamentação do discurso evangélico-capitalista, Das Kapital Evangelical (A Igreja do Capital) precisa usar o livro sagrado como argumento inquestionável de sua praxis eclesial.

Max Weber (1864-1920) já havia relacionado a ética protestante ao espírito do capitalismo (título de sua obra mais conhecida). Weber mal imaginava a que nível de comprometimento os evangélicos-protestantes seriam imersos no capitalismo.

Principalmente por causa de uma teologia americana da guerra fria em que escatologicamente a União Soviética era vista como o grande anticristo e os EUA como os grandes propagadores da Palavra de Deus, os evangélicos-protestantes brasileiros acabaram se relacionando muito bem com a propaganda capitalista e seu opuseram a qualquer sistema de esquerda, mesmo os que não eram tão radicais e ateísticos quanto o comunismo.

O envolvimento  do catolicismo brasileiro e latino-americano com visões marxistas “teologizadas” como a Teologia da Libertação[4] fez com que a aproximação da práxis e pregação protestante com o capitalismo americano, também “teologizado” em muitos manuais de escatologia, se torna-se ainda mais forte.

Escrituristicamente falando um evangélico-protestante não deveria ser adepto a nenhum sistema político-econômico-filosófico e nem defender nenhum partido político em detrimento de outro, entretanto, historicamente e pelos motivos já acima mencionados, o protestantismo se afeiçoou ao sistema capitalista por razões não bíblicas.

O apóstolo Paulo nos deixa claro que

“…a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo,  21 Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas. (Fp 3.20-21 )

O autor de Hebreus também nos alerta:

13 Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra.  14 Porque, os que isto dizem, claramente mostram que buscam uma pátria.  15 E se, na verdade, se lembrassem daquela de onde haviam saído, teriam oportunidade de tornar.  16 Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial. Por isso também Deus não se envergonha deles, de se chamar seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade. (Hb 11.13-16)

E ainda:

   22 Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos;  23 À universal assembléia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; 

(Hb 12.22-23)

Já que a nossa cidade está nos céus, aguardamos a cidade celestial, a cidade do Deus vivo, nossa esperança não podem estar em sistemas políticos humanos que são todos provisórios e ineficazes, injustos e falhos, pois são feitos com base em filosofias e sofismas de homens pecadores. Essa posição, todavia, não nos deve levar à estagnação e inércia, os protestantes-evangélicos sempre tiveram um

envolvimento com a obra social e a ajuda aos necessitados.[5]

Como disse, não sou nenhum sociólogo, economista e nem cientista político, tenho militado mais na área de exegese bíblica, entretanto, o assunto e a práxis neopentecostal me perturba. O que posso dizer, nem toda a exegese e análise bíblica do mundo pode mudar o pensamento e a práxis neopentecostal e protestante-evangélica, somente o arrependimento e a volta às Escrituras nos poderiam fazer enxergar o quanto buscamos o reino deste mundo em detrimento ao Reino dos Céus, só posso pedira a todos uma coisa, leiam com cuidado e sinceridade o texto abaixo e Saí da Babilônia, povo Meu, Diz o Senhor:

1 E DEPOIS destas coisas vi descer do céu outro anjo, que tinha grande poder, e a terra foi iluminada com a sua glória.  2 E clamou fortemente com grande voz, dizendo: Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e covil de todo espírito imundo, e esconderijo de toda ave imunda e odiável.  3 Porque todas as nações beberam do vinho da ira da sua prostituição, e os reis da terra se prostituíram com ela; e os mercadores da terra se enriqueceram com a abundância de suas delícias.  4 E ouvi outra voz do céu, que dizia: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas.  5 Porque já os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniqüidades dela.  6 Tornai-lhe a dar como ela vos tem dado, e retribuí-lhe em dobro conforme as suas obras; no cálice em que vos deu de beber, dai-lhe a ela em dobro.  7 Quanto ela se glorificou, e em delícias esteve, foi-lhe outro tanto de tormento e pranto; porque diz em seu coração: Estou assentada como rainha, e não sou viúva, e não verei o pranto.  8 Portanto, num dia virão as suas pragas, a morte, e o pranto, e a fome; e será queimada no fogo; porque é forte o Senhor Deus que a julga.  9 E os reis da terra, que se prostituíram com ela, e viveram em delícias, a chorarão, e sobre ela prantearão, quando virem a fumaça do seu incêndio;  10 Estando de longe pelo temor do seu tormento, dizendo: Ai! ai daquela grande Babilônia, aquela forte cidade! pois numa hora veio o seu juízo.  11 E sobre ela choram e lamentam os mercadores da terra; porque ninguém mais compra as suas mercadorias:  12

Mercadorias de ouro, e de prata, e de pedras preciosas, e de pérolas, e de linho fino, e de púrpura, e de seda, e de escarlata; e toda a madeira odorífera, e todo o vaso de marfim, e todo o vaso de madeira preciosíssima, de bronze e de ferro, e de mármore;  13 E canela, e perfume, e mirra, e incenso, e vinho, e azeite, e flor de farinha, e trigo, e gado, e ovelhas; e cavalos, e carros, e corpos e almas de homens.  14 E o fruto do desejo da tua alma foi-se de ti; e todas as coisas gostosas e excelentes se foram de ti, e não mais as acharás.  15 Os mercadores destas coisas, que com elas se enriqueceram, estarão de longe, pelo temor do seu tormento, chorando e lamentando,  16 E dizendo: Ai, ai daquela grande cidade! que estava vestida de linho fino, de púrpura, de escarlata; e adornada com ouro e pedras preciosas e pérolas! porque numa hora foram assoladas tantas riquezas.  17 E todo o piloto, e todo o que navega em naus, e todo o marinheiro, e todos os que negociam no mar se puseram de longe;  18 E, vendo a fumaça do seu incêndio, clamaram, dizendo: Que cidade é semelhante a esta grande cidade?  19 E lançaram pó sobre as suas cabeças, e clamaram, chorando, e lamentando, e dizendo: Ai, ai daquela grande cidade! na qual todos os que tinham naus no mar se enriqueceram em razão da sua opulência; porque numa hora foi assolada.  20 Alegra-te sobre ela, ó céu, e vós, santos apóstolos e profetas; porque já Deus julgou a vossa causa quanto a ela.  21 E um forte anjo levantou uma pedra como uma grande mó, e lançou-a no mar, dizendo: Com igual ímpeto será lançada Babilônia, aquela grande cidade, e não será jamais achada.  22 E em ti não se ouvirá mais a voz de harpistas, e de músicos, e de flautistas, e de trombeteiros, e nenhum artífice de arte alguma se achará mais em ti; e ruído de mó em ti não se ouvirá mais;  23 E luz de candeia não mais luzirá em ti, e voz de esposo e de esposa não mais em ti se ouvirá; porque os teus mercadores eram os grandes da terra; porque todas as nações foram enganadas pelas tuas feitiçarias.  24 E nela se achou o sangue dos profetas, e dos santos, e de todos os que foram mortos na terra. 

Ap 18.1-24

 

Bibliografia

MÉSZÁROS, István. O Marxismo de István Mészáros. In: Sociologia. Ano IV ed. 36 Ago/Set 2011, p. 6-13

WEBER, Max. Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 2010

AURÉLIO, Daniel Rodrigues (ed.). Karl Marx: Coleção Guias de Filosofia. São Paulo: Editora Escala, Ed. 01 [2011] FERREIRA, Franklin. Uma introdução a Max Weber e a “Ética

Protestante e o Espírito do Capitalismo” in:

<http://www.monergismo.com/textos/resenhas/weber_capitalismo.pdf> acesso em: 24.02.12

 [1] Claro que esta é uma visão simplista de um leigo em sociologia, claro que os marxistas irão discordar e praguejar

[2] Os pais de Marx tinham origem judaica, porém seu pai (Hirschel Marx) se converteu ao protestantismo

[3] Também não sou simpatizante de nenhum desses sistemas político-econômicosfilosóficos, vivo no sistema capitalista que me é imposto e procuro fazer o possível para tentar fugir de suas injustiças o que não penso ser diferente das injustiças comunistas, socialistas, de direita, esquerda, centro, etc, etc, etc, aguardo a cidade que está nos céus, procurando contribuir nessa que está na terra o quanto me seja

[4] Que fique claro que também não sou adepto da Teologia da Libertação o que pra mim é uma camisa de força marxista que usa “óculos” colorido para ler a Bíblia

[5] Wesley, o Exército da Salvação, os Metodistas, Batistas, Presbiterianos, Assembleianos, etc, sempre tiveram e continuam mantendo obras sociais de grande vulto, ainda que não sejam tão divulgadas como nas outras entindades não protestantes.

2 Comentários

  1. Artigo muito oportuno em meio a teologia moral de causa e efeito e prosperidade, contudo já tem havido algumas igrejas históricas caminhando nessa linha capitalista 😉

    Aqui é o Fernando que passou pelo centro de reabilitação Missão Ebenézer, grande abraço pastor!

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