Análise do Discurso Crítica em The Da Vinci Code

Análise do Discurso Crítica em The Da Vinci Code[1]

por

José Ribeiro Neto

Pastor da Igreja Batista do Vale, Vale das Virtudes, SP. Diretor Pedagógico do Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini. Doutorando e Mestre em Estudos Judaicos pela Universidade de São Paulo, Mestre em Teologia Bíblica do Antigo Testamento pelo Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini.

 

Introdução

É fato inegável que existe um mercado editorial de massa bem ativo em nossa sociedade. A chamada mídia de massa tem um poder muito grande de influência não só na mente e forma de vida do povo simples, mas também nos meios mais cultos e até mesmo entre os intelectuais universitários.

Os efeitos dessa influência nem sempre são perceptíveis, tendo em vista que a quantidade de informação midiática, o poder de influência da mesma e a criação de um inconsciente coletivo sobre determinados temas são tão poderosos e sutis que nem sempre conseguimos detectá-los na nossa forma de ver o mundo e de fazer ciência. Portanto, é preciso que nos utilizemos as teorias literárias, no caso desse trabalho, a teoria da Análise de Discurso Crítica (ADC), para tentar sermos os mais objetivos possíveis a ponto de podermos verificar o substrato ideológico presente na literatura de massa divulgada em nosso meio social.

A análise literária envolve várias teorias e pode ser feita sob vários aspectos diferentes. É certo, contudo, serem algumas teorias mais eficientes para determinados tipos de análise do que outras, sendo assim, procuramos desenvolver um estudo da obra The Da Vinci Code de Dan Brown, através da teoria da Análise do Discurso e dentro dessa teoria procuramos adotar a ADC, principalmente quando a mesma se utiliza da análise teórica da sociologia no que diz respeito ao entendimento de como se processa o elemento ideológico nas diversas manifestações midiáticas.

 

Escolhemos o livro de Dan Brown por ser um livro em que os efeitos da elaboração ideológica se dão de forma sutil e pouco perceptível aos leigos em teologia. As informações dadas por Dan Brown em seu livro são um apanhado de várias teorias críticas a respeito da formação do Novo Testamento, da pessoa, vida e obra de Jesus Cristo, da história da igreja cristã e de tantos outros elementos do cristianismo.

 

Como essas afirmações são feitas de forma sutil, em meio a um romance de ficção, o entendimento da ideologia e pressupostos presentes na obra não é trabalho para leigos em assuntos bíblicos e por isso mesmo nos propomos a fazer um estudo que utilizasse tanto da ADC como também dos conhecimentos disponíveis na área acadêmica dos estudos teológicos.

 

Para tal análise, além da teoria da ADC, é necessário ter algum conhecimento sobre: paleografia, grego, hebraico, aramaico, história da igreja, crítica textual do novo testamento, crítica textual do antigo testamento, teologia, dentre tantas outras matérias afins. Como temos trabalhado com essas matérias ao longo dos nossos estudos acadêmicos já há dez anos, cremos ser possível fazermos essa análise da obra, ainda que de forma introdutória, tendo em vista os limites desse trabalho e o tempo disposto para a elaboração do mesmo.

 

Procuraremos desenvolver essa análise tratando no primeiro capítulo da Fundamentação teórica da Análise do Discurso Crítica (ADC), em que levantaremos as principais correntes da teoria e fundamentaremos a nossa opção pela ADC.

 

No capítulo dois, por meio da teoria escolhida e do arcabouço teórico para a análise ideológica de Thompson (1995), com suas subdivisões, desenvolveremos a análise da obra, intercalando com os conhecimentos bíblicos necessários para verificar a precisão ou a imprecisão dos fatos narrados em The Da Vinci Code.

 

Fundamentação teórica da Análise do Discurso Crítica (ADC)

 

A Análise do Discurso Crítica é uma linha teórico-metodológica de Análise do Discurso. Vendo a linguagem como uma prática social e resultado de elementos culturais, a ADC[2] procura verificar os discursos presentes nas obras literárias, artigos de jornais e revistas, e toda manifestação lingüística quer oral quer escrita, vai mais além analisando toda manifestação de comunicação, sejam elas pinturas, som, imagem, etc, buscando principalmente o discurso ideológico subjacente à comunicação humana.

 

Os principais expositores da ADC de linha Britânica são Norman Fairlough e J. B. Thompson[3], os quais veremos brevemente na seqüência desse capítulo.

 

No Brasil, a primeira pesquisadora a desenvolver trabalhos tendo como referencial a teoria e a metodologia da ADC foi a pesquisadora da Universidade de Brasília Izabel Magalhães (RAMALHO & RESENDE, 2006, p. 21). O embasamento teórico dessa pesquisadora está fundamentado nos trabalhos de Fairclough que consolidou o papel do lingüista crítico na análise do discurso chamada ADC.

 

Segundo RAMALHO & RESENDE (2006, p. 14):

 

A ADC é, por princípio, uma abordagem transdisciplinar. Isto significa que não somente aplica outras teorias como também, por meio do rompimento de fronteiras epistemológicas, operacionaliza e transforma tais teorias em favor da abordagem sociodiscursiva. Assim sendo, a ADC provém da operacionalização de diversos estudos, dentre os quais, com base em Fairclough (2001a), destacamos os de Foucault (1997, 2003) e de Bakhtin (1997, 2002), cujas perspectivas vincularam discurso e poder e exerceram forte influência sobre a ADC.

Bakhtin (1997, 2002) foi fundador da primeira teoria semiótica de ideologia, da noção de ‘dialogismo’ na linguagem e precursor da crítica ao objetivismo abstrato de Saussure (1981). Em seus ensaios filosóficos marxistas sobre a linguagem, sustentou que a ‘verdadeira substância da língua’ não repousa na interioridade dos sistemas lingüísticos, mas no processo social da interação verbal (Bakhtin, 2002, p. 123). Seguindo preceitos do Materialismo Histórico, essa filosofia apresenta a enunciação como realidade da linguagem e como estrutura socioideológica, de sorte que prioriza não só a atividade da linguagem mas também sua relação indissolúvel com seus usuários.

 

Tendo em vista a amplitude de estudos envolvidos na Análise do Discurso e a imensa quantidade de autores que já analisaram os aspectos da linguagem que vão além da superfície do texto escrito, precisaremos nesse capítulo, delimitar os autores principais e mais atuais na discussão acadêmica da Análise do Discurso. Escolhemos, portanto, o autor mais influente dentro da ADC, Norman Fairclough; e um segundo de mesma influência, só que no campo da análise ideológica, John B. Thompson. Com base no trabalho desses dois autores é que desenvolvemos a nossa análise do livro de Dan Brown The Da Vinci Code.

 

No final, entretanto, situaremos outros autores de linha diferente, ainda que brevemente, assumindo que qualquer análise literária, e principalmente a Análise do Discurso, não pode ter cânones de escolas, mas sim, utilizar-se da amplitude dos conhecimentos acadêmicos para que a análise seja o mais ampla e objetiva possível.

 

1.1 Norman Fairclough

 

 Norman Fairclough, é, atualmente, o maior expositor da ADC de linha britânica. A visão de discurso de Fairclough é mais ampla do que simplesmente análise de textos, para a ADC não é simplesmente a análise do discurso per se, mas

 

(…) mas análise das relações entre o discurso e os elementos não-discursivos do social, de forma a ter um melhor entendimento dessas complexas relações (incluindo como as mudanças no discurso podem causar mudanças  em outros elementos). Mas se nós estamos analisando relações entre discurso e elementos não-discursivos, nós podemos obviamente vê-los como diferentes elementos da realidade social – como antologicamente (e não somente epistemologicamente, analiticamente) diferente.

(FAIRLOUGH in Organization Studies, n.º 26, 2005, p. 924)

 

A abordagem de Fairclough é uma abordagem que visa analisar o discurso ou os discursos de modo a perceber as conecções e causas que não são visíveis na superfície dos textos, das propagandas, discursos políticos. Causas ocultas nesses discursos que através da ADC podem ser descobertos de modo a “intervir socialmente para produzir mudanças que favoreçam àqueles(as) que possam se encontrar em situação de desvantagem” (RAMALHO & RESENDE, 2006, p. 23).

 

Segundo o próprio Fairclough (2005, in passim) a análise do Discurso Crítica está baseada em um ponto de vista que entende o discurso como um processo social em que os elementos se interconectam através de diversos tipos de redes de práticas sociais as mais deferentes (econômicas, políticas, culturais, familiares, etc.). O autor entende que cada uma dessas relações se internalizam e se constituem sem que um se reduza ao outro, sendo a ADC “a análise da dialética do relacionamento entre discurso (incluindo linguagem mas também outras formas de semiosis, por exemplo, um corpo de linguagem ou imagens visuais) e outros elementos das práticas sociais” (FAIRCLOUGH, 2007, p. 1).

             

1.2 John B. Thompson

 

Thompson é um dos mais influentes sociólogos da atualidade que trabalham com a análise ideológica do discurso e por isso utilizaremos sua metodologia para a análise do discurso ideológico em The Da Vinci Code, o arcabouço de Thompson é uma forma de análise de construções simbólicas ideológicas (In RESENDE & RAMALHO, 2006, p. 52):

 

 

MODOS GERAIS DE

OPERAÇÃO DA IDEOLOGIA

ESTRATÉGIAS TÍPICAS DE CONSTRUÇÃO SIMBÓLICA
LEGITIMAÇÃO

Relações de dominação são representadas como legítimas

RACIONALIZAÇÃO (uma cadeia de raciocínio procura justificar um conjunto de relações)
UNIVERSALIZAÇÃO (interesses específicos são apresentados como

interesses gerais)

NARRATIVIZAÇÃO (exigências de legitimação inseridas em histórias do passado que legitimam o presente)
DISSIMULAÇÃO

Relações de dominação são ocultadas, negadas ou obscurecidas

DESLOCAMENTO    (deslocamento

textual de termos e expressões)

EUFEMIZAÇÃO (valoração positiva de instituições, ações ou
TROPO            (sinédoque,             metonímia, metáfora)
UNIFICAÇÃO

Construção simbólica de identidade coletiva

PADRONIZAÇÃO[4] (um referencial padrão proposto como
SIMBOLIZAÇÃO DA UNIDADE

(construção de símbolos de unidade e identificação coletiva)

FRAGMENTAÇÃO

Segmentação de indivíduos e grupos que possam representar ameaça ao grupo dominante

DIFERENCIAÇÃO (ênfase em características que desunem e impedem a constituição de desafio
efetivo)EXPURGO                       DO                         OUTRO

(construção simbólica de um inimigo)

REIFICAÇÃO

Retratação de uma situação transitória

como permanente e natural

NATURALIZAÇÃO (criação social e histórica tratada como
ETERNIZALIZAÇÃO (fenômenos sócio históricos apresentados como
permanentes)NOMINALIZAÇÃO  / PASSIVAÇÃO (concentração da atenção em certos temas em detrimento de outros, com apagamento de atores e ações)

 

Dividimos os tópicos desse trabalho de modo a utilizar desse arcabouço metodológico-teórico e a partir dele intercalaremos e à medida do possível também de outros teóricos da Análise do Discurso bem como dos estudos bíblicos necessários para fazermos o contraponto com as afirmações implícitas em The Da Vinci Code.

 

 

 

1.3 Outras teorias da Análise do Discurso

 

A Análise de Discurso envolve várias teorias e muitos tipos diferentes de análise. Desde a Ordem de Discursos (FOUCAULT, 2007),

Nova Tendências em Análise do Discurso (MAINGUENEAU, 1997); Análise de Discurso: princípios e procedimentos (ORLANDI, 2000) e tantos outros títulos, as teorias sobre tal matéria têm se alastrado, sendo muitas vezes convergentes e outras vezes conflitantes.

 

A Análise do Discurso é uma teoria situada no âmbito da lingüística, ou seja, os elementos teóricos da lingüística são usados como argumentação crucial na Análise do Discurso (AD), segundo Maingueneau (1997, p. 160):

 

 

Se as teorias lingüísticas da argumentação se revelam cruciais para a AD, é precisamente porque são lingüísticas, porque liberam estratégias argumentativas tão discretas e sutis quanto eficazes, porque questionam o enunciador e o co-enunciador. Longe de serem superpostas às estruturas, estas estratégias só se manifestam à medida que a própria organização da língua é condicionada por esta necessidade de agir sobre outrem. Nesta perspectiva dever ser compreendido particularmente o fato que argumentação da linguagem se apóia freqüentemente sobre o implícito: o implícito não é uma lacuna presente em uma alocução que, de direito, deveria ser explicitável, mas constitui uma dimensão essencial da atividade discursiva.

 

 

A lingüística nos ajuda a perceber essas lacunas implícitas no uso que os autores fazem da linguagem. O importante para uma leitura menos ingênua de qualquer obra literária é justamente perceber mais do que o leigo ou o público geral percebe, ou seja, ser capaz de interpretar os elementos implícitos na atividade discursiva dos autores, elementos esses só plenamente verificados quando levamos em conta que os autores trazem para suas obras toda a carga de influência social do ambiente em que vivem e que, consciente ou inconscientemente trazem para os seus escritos sua cosmovisão. Os teóricos da linguagem trazem várias nomenclaturas diferentes para esses elementos implícitos da linguagem inerente às obras, de acordo com Bakhtin[5] (1988, p. 88 in: Fiorin :

2006, p. 18):

 

 

A orientação dialógica é naturalmente um fenômeno próprio a todo discurso. Trata-se da orientação natural de qualquer discurso vivo. Em todos os seus caminhos até o objeto, em todas as direções, o discurso se encontra com o discurso de outrem e não pode deixar de participar, com ele, de uma interação viva e tensa. Apenas o Adão mítico que chegou com a primeira palavra num mundo virgem[6], ainda não desacreditado, somente este Adão podia realmente evitar por completo esta mútua orientação dialógica do discurso alheio para o objeto. Para o discurso humano, concreto e histórico, isso não é possível: só em certa medida e convencionalmente é que pode dela se afastar.

 

 

O que Bakhtin quer dizer é que os seres humanos trazem em seus discursos, tanto escritos como orais, o que ele chama de dialogismo,o diálogo do outro inerente ao seu diálogo. Os diálogos não conseguem se libertar do outro, pois trazem em si o discurso alheio. O discurso de cada um é, então, envolvido pelo discurso alheio, que o transpassa, sendo assim o dialogismo é constituído pelas relações discursivas de sentido entre os enunciados.

 

O importante nessa teoria do dialogismo de Bakhtin é que nos mostra que não existem falas inéditas, ou enunciados autônomos, ao falarmos trazemos aquilo que nos constituí, nossa sociedade, nossa educação, cultura, crenças, etc. Sendo assim, a obra literária está cheia de dialogismo e não é diferente em The Da Vinci Code. O Romance, que causou grande alvoroço na mídia de massa, também traz elementos dialógicos de outros enunciados; as questões implicitamente levantadas pela obra não são novas, trazem em seu bojo intertextualidade com muitas outras obras que usaram a mesma temática (Jesus, Bíblia, Maria Madalena), para persuadir seus leitores sobre uma teoria da conspiração católica que esconde a “verdade” sobre Jesus.[7]

 

A libertação do discurso do outro é um sonho mítico, a objetividade absoluta, o dizer ainda não dito, o pioneirismo da linguagem. Muitos advogam para si esse discurso exclusivo, todavia, não passa de um discurso ingênuo que não leva em conta a dependência do outro que nos constituí.

 

Até mesmo Foucault incorreu no erro de querer se abstrair do seu próprio discurso, de querer ser espectador de sua própria fala, queria ser envolvido pelo dizer sem ter que ser influenciado por outros dizeres, gostaria que sua palavra fosse simplesmente uma continuação encadeada de uma voz sem nome, como podemos claramente notar em sua aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970 (Foucault, 2007, p. 5-6):

 

 

Gostaria de me insinuar sub-repticiamente no discurso que devo pronunciar hoje, e nos que deverei pronunciar aqui, talvez durante anos. Ao invés de tomar a palavra, gostaria de ser envolvido por ela e levado bem além de todo começo possível. Gostaria de perceber que no momento de falar uma voz sem nome me precedia há muito tempo: bastaria, então, que eu encadeasse, prosseguisse a frase, me alojasse, sem ser percebido, em seus interstícios, como se ela me houvesse dado um sinal, mantendo-se, por um instante, suspensa. Não haveria, portanto, começo; e em vez de ser aquele de quem parte o discurso, eu seria, antes, ao acaso de seu desenrolar, uma estreita lacuna, o ponto de seu desaparecimento.

 

 

Nessa introdução à sua aula inaugural, Foucault se mostra até romântico em demasia, romantismo que no decorrer de sua aula é abandonado, deixando claro que o discurso é uma lei que governa os enunciados o que traz inquietação já que sabe que o discurso é socialmente controlado, selecionado, organizado e redistribuído “por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.” (Foucault, 2007, p. 9).

 

Para Fiorin (2002, p. 52-53) as relações entre o que chama de enunciador e enunciatário são carregadas de persuasão, já que o objetivo último e fundamental do enunciador não é trazer qualquer tipo de informação ao enunciatário, mas sim persuadi-lo a aceitar as suas afirmações. A comunicação humana é um jogo complexo de manipulações em que o enunciador busca fazer com que seu interlocutor creia naquilo que se transmite. Para tanto, o enunciador se utiliza de vários tipos de recursos lingüísticos e de procedimentos argumentativos que são elencados de forma lógica pelo enunciador de modo a convencer o enunciatário.

 

Essas várias teorias exerceram e exercem influência sobre os estudos da linguagem. Embora muitas dessas teorias sejam mais difundidas no campo da lingüística, o fundamento teórico delas está alicerçado mais na filosofia da linguagem e em outros campos da Filosofia e Sociologia. O caráter geral do nosso trabalho e o foco sobre uma obra específica não nos permitirá um aprofundamento nas várias teorias da Análise do Discurso, todavia, as diversas referências que faremos à Análise do Discurso, principalmente aos da linha da ADC, poderão proporcionar aos que quiserem ir além desse trabalho, o aprofundamento por meio da consulta das obras citadas ao final, nas referências.

 

 

Análise do Discurso em The Da Vinci Code com base no arcabouço teórico de análise ideológica de John B. Thompson

 

Neste capítulo verificaremos a descrição das personagens do livro de Dan Brown (2003) de modo a podermos entender como o autor, através da linguagem, deixa implícita a sua ideologia na obra The Da Vinci Code. Para isso, citaremos trechos da obra em que ele descreve as principais personagens de seu romance, de modo que, por meio dessas descrições possamos verificar, utilizando da Análise de Discurso Crítica e seguindo o arcabouço teórico de análise ideológica de Thompson, como Brown incute ao seu leitor seu pensamento a respeito dos temas referentes a Jesus, Maria Madalena, os evangelhos gnósticos, dentre outros temas relacionados com a temática da obra.

 

Precisaremos também intercalar a teoria de Thompson com pesquisas bíblicas acadêmicas na área de estudos do Antigo Testamento e principalmente do Novo Testamento a fim de comprovarmos a inconsistência de algumas das principais afirmações implícitas ou explícitas em Brown (2003) sobre os temas abordados em The Da Vinci Code. Utilizaremos para tanto, de autores especialistas na área de estudos bíblicos bem como de evidências arqueológicas da paleografia, dos estudos das línguas originais da Bíblia (hebraico, aramaico e grego) e de fontes históricas que fundamentem as nossas afirmações. Serão usadas ainda diversas notas de rodapé para explicar termos técnicos da área teológica ou para explicar melhor alguns fatos históricos, lingüísticos e bíblicos.

 

2.1 Descrição das personagens

 

 

 Brown (2003) descreve as personagens de seu romance de modo a construir os elementos necessários para persuadir seu leitor a admitir como certo, como válido o sentido que quer produzir, conforme nos diz Fiorin (2002, p. 52-53) sobre as relações entre enunciador e enunciatário. Nas descrições das personagens abaixo, perceberemos implicitamente essas intenções[8]. Vejamos então essas descrições e percebamos a carga de motivação que elas carregam:

 

 

JACQUES SAUNIÈRE (Chapter 4, p. 25)

 

 

Langdon sensed Fache did not see at all. Jacques Sauière was considered the premiere goddess iconographer on earth. No only did Saunière have a personal passion for relics relating to fertility, goddess cults, Wicca, and the sacred feminine, but during his twenty-year tenure as curator, Saunière had helped the Louvre amass the largest collection of goddess art on earth – labrys axés from the priestesses’ oldest Greek shine in Delphi, gold caducei wands, hundreds of Tjet ankhs resembling small standing angels, sistrum rattles used in ancient Egypt to dispel evil spirits, and an  astonishing array of statues decipicting Horus being nursed by the goddess Isis.

 

 

É evidente que nessa descrição Brown valoriza a personagem de Jacques Saunière com as palavras “..was considered the primiere goddess iconographer on earth.”, é uma forma de colocá-lo como um estudioso renomado e reconhecido nos meios acadêmicos, “…had helped the Louvre amass the largest collection of goddess art on earth”, a repetição da expressão “on earth” é uma espécie de elemento de persuasão para que o leitor se sinta induzido que não se trata de qualquer curioso, mas o maior especialista no assunto em todo o mundo, conduzindo o seus interlocutores a acreditarem que sua personagem tinha profundo conhecimento do assunto. Tais afirmações servirão aos propósitos posteriores do romance de convencer os leitores a acreditarem que o sagrado feminino foi perseguido, mas constitui uma espécie de religião primordial da humanidade.

 

 

ARINGAROSA (Chapter 5, p. 31):

 

 

As    president-general    of    Opus    Dei,      Bishop

Aringarosa had spent the last decade of his life spreading the message of “God’s Work” – literally, Opus Dei. The congregation founded in 1928 by Spanish priest Josemaría Escrivã, promoted a return to conservative Catholic values and encouraged its membres to make sweeping sacrificies in their own lives in order to do the Work of God.

 

 

A descrição dessa personagem é o contraponto da anterior, aliás, em todo o romance Brown faz contrastes. Enquanto Saunière é descrito como um estudioso, pesquisador, o maior especialista em todo o mundo, Aringarosa “had spent the last decade of his life spreading the message of `God’s Work…” e é president-general de uma instituição cujos valores “…encouraged its membres to make sweeping sacrificies in their own lives in order to do the Work of God.”. Ao ler The Da Vinci Code percebe-se esse contraste entre as instituições cristãs e as pagãs, aquelas sempre associadas a valores e estas sempre descritas como fruto de pesquisas científicas.[9]

 

Aringarosa é uma espécie de símbolo de atraso, de opressão e de imposição de conceitos medievais, enquanto que Saunière é símbolo de liberdade de inovação e de avanço científico.[10]

 

 

SILAS (Chapter 2, p. 12):

 

 

One mile away, the hulking albino named Silas limped through the front gate of the luxurious brownstone residence on Rue La Bruyére. The spiked cilice belt that he wore around his thing cut into his flesh, and yet his soul sang with satisfaction of service to the Lord.

Pain is good.

His red eyes scanned the lobby as he entered the residence. Empty. He climbed the stairs quietly, not wanting to awaken any of his fellow numeraries. His bedroom door was open; lock were forbidden here. He entered, closing the door behind him.

 

 

Na descrição de Silas notamos novamente o dualismo entre as instituições católicas e seus seguidores e as instituições pagãs e seus adeptos. Enquanto Aringarosa é o contraste de Saunière, Silas é o contraste de Sophie e Langdon. É descrito como um servo subserviente de Aringarosa e “…his soul sang with satisfaction of service to the Lord”, à medida em que o enredo do romance se desenrola percebe-se que as palavras dessa narrativa são irônicas, levando o leitor a ver o catolicismo e seus seguidores como antítipos de Silas, ou seja, Silas representa a cegueira e subserviência dos adeptos do catolicismo, que são fiéis servos, mas iludidos por um sistema opressor.

 

 

ROBERT LANGDON (Chapter 1, p. 7):

 

 

THE AMERICAN UNIVERSITY OF PARIS

Proudly presents

AN EVENING WITH ROBERT LANGDON

PROFESSOR OF RELIGIOUS SYMBOLOGY,

HARVARD UNIVERSYTY

 

 

Com poucas palavras, em um papel de anúncio, é perceptível a valorização que Brown dá ao herói de seu romance. Essa representação simbólica dada a Langdon será importante, pois na fala da personagem é que Brown procurará levar seus leitores a aceitar as afirmações implícitas sobre o “sagrado feminino” e sua superioridade em relação ao “machismo católico-cristão”, bem como outras afirmações de Lagdon sobre Jesus, Constantino, Evangelhos, etc.

 

 

SOPHIE NEVEU (Chapter 9, p. 55)

 

 

Sophie Neveu was one of DCPJ’s biggest mistakes. A young Parisian déchiffreuse who had studied cryptography in England at the Royal Holloway, Sophie Neveu had been foisted on Fache two years ago as part of the ministry’s attempt to incorporate more women into the police force. The ministry’s ongoing foray into political corectness, Fache argued, was weakening the departament. (…)

At thirty-two years old, she had a dogged determination that bordered on obstinate. Her eager espousal of Britain’s new criptologic methodology continually exasperated the most troubling to Fache was the inescapable universal truth that in na Office of middle-aged men, na attractive Young woman always drew eyes away from the work at hand.

 

 

 

 

Sophie Neveu é a heroína per excellence do romance, é a personagem mais valorizada por Brown, ela é o símbolo do sagrado feminino; inteligente, eficiente, jovem, atraente, motorista habilidosa, decifradora de enigmas, dentre tantas outras qualidades e habilidades dadas a ela por Brown.

 

Sophie, no desenrolar do enredo, é descrita como descendente de reis, portadora do Sangue Real. O climax do romance é justamente quando é descoberto que a heroína tem o sangue de Jesus correndo em suas veias. Seu oposto é Captain Bezu Fache, que por diversas vezes é descrito como inferior e menos inteligente que ela.

 

 

SIR LEIGH TEABING (Chapter 51, p. 236, 237, 238)

 

 

Langdon had first met Teabing several  years ago through the British Broadcasting Corporation. Teabing had approached the BBC with a proposal for a historical documentary in which he would expose the explosive history of the Holy Grail to a mainstream television audience. (…)

“Teabing has spent his life trying to broadcast the truth about the Holy Grail. The Priory’s oath is to keep its true nature hidden.”

Langdon paused. “I’ll tel you at Teabing’s. He and I specialize in different áreas of the legend so between the two of us, you’ll get the full story.” Langdon smiled. “Besides, the Grail has been Teabing’s life, and hearing the story of the Holy Grail from Leigh Teabing will be like hearing the theory of relativity from Einstein himself.”

 

 

Percebe-se que Teabing é também o contraste com Aringarosa, tal fato é principalmente notado na mesma expressão “has spent his life trying to broadcast the truth about the Holy Grail. The Priory’s oath is to keep its true nature hidden”. A diferença é que Teabing é descrito como um estudioso renomado, um especialista comparado a Albert Einstein. Essa descrição será, sem dúvida, a mais importante em The Da Vinci Code, pois é da fala de Teabing que sairá o que podemos chamar de fundamentação da tese do romance.

 

CAPTAIN BEZU FACHE (Chapter 4, p. 22)

 

 

Captain Bezu Fache carried himself like na angry ox, with his wide shoulders thrown back and his chin tucked hard into his chest. His dark hair was slicked back with oil, accentuating an arrow-like widow’s peak that divided his jutting brow and preceded him like the prow of a battleship. As he advanced, his dark eyes seemed to sorch the earth before him, radiating a fiery clarity that forecast his reputation for unblinking severity in all matters.

 

 

Aqui a personagem é descrita usando suas características físicas como símbolos de seu caráter, determinação e dureza de personalidade. É o antagonista do enredo, persegue Langdon e Sophie o tempo todo e sempre é descrito como inferior aos dois em inteligência.

 

 

OPUS DEI (Fact)[11]

 

 

The Vatican prelature known as Opus Dei is a deeply devout Catholic sect that has been the topic of recent controversy due to reports of brain-washing, coercion, and dangerous pratice known as “corporal mortification.” Opus Dei has just completed construction of a $47 million

National Headquarters at 243 Lexington Avenue in New York City

 

 

 

A instituição católica Opus Dei é no romance de Brown uma espécie de personagem coletiva, também antagonista e está em oposição ao Priorado de Sião. É opulenta, coercitiva e perigosa, milionária e descrita como uma instituição que sabe do segredo de Jesus e Maria Madalena, mas tenta esconder, perseguir e matar os adeptos do Priorado que detém elementos que podem revelar esse segredo e carregam o Sangue Real.

 

 

THE PRIORY OF SION (Fact)

 

 

 

The Priory of Sion – A European secret society founded in

1099 – is real organization. In 1975 Paris’s bibliothèque

Nationale discovered parchments known as Les Dossiers Secrets, identifying numerous membres of the Priory of Sion, incluinding Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo and Leonardo da Vinci.

 

 

O discurso ideológico de Brown é sutilmente percebido aqui, apesar de deixar claro nas páginas introdutórias que se trata de um romance, o autor procura nas primeiras páginas levar o leitor a aceitar que as informações a respeito de instituições e documentos descritas no romance são verídicas. Na citação acima percebemos que o autor relaciona pessoas de importância na história como tendo feito parte do Priorado de Sião.

 

 

2.2 Enredo do romance

 

 

O Enredo do romance se desenvolve da seguinte forma: [12] Enquanto está em Paris para uma palestra sobre simbologia religiosa, Robert Langdon, um estudioso de simbologia de Harvard, recebe um telefone em que é informado que o curador do museu do Louvre foi assassinado dentro do museu.

 

Tendo sido chamado para decifrar figuras enigmáticas próximas ao corpo encontra-se com a criptologista Sophie Nevue, mais tarde fica sabendo que a mesma era neta do falecido Jacques Saunière, o curador do museu. Desconfiando de Langdon, Captain Bezu, sorrateiramente procura segurá-lo no museu para posteriormente incriminá-lo, sendo informado por Sophie do plano do policial inicia-se uma fuga do museu em meio a uma tentativa de decifrar as mensagens secretas deixadas por Saunière nos seus últimos momentos de vida.

 

Paralelamente a esses acontecimentos somos informados de Silas, assassino de Sanière e servo fiel de Aringarosa, presidente da Opus Dei, uma sociedade misteriosa ultra-ortodoxa dentro da igreja católica, está tentando impedir que segredos milenares que comprometerão todo o cristianismo sejam revelados. Entre perseguições e mistérios revelados, ficamos sabendo que Leonardo Da Vinci, em sua pintura da Santa Ceia, deixa implícitos segredos sobre uma outra história da vida de Jesus. Ele foi casado com Maria Madalena e teve uma filha chamada Sara, perpetuando a sua semente, o Sangue Real (Santo Graal), este fato foi escondido pela igreja católica que no decorrer da história perseguiu as mulheres, escondendo e inibindo o culto ao sagrado feminino.

 

Por intermédio de Constantino, que no Concílio de Nicéia impediu a entrada dos evangelhos gnósticos que valorizavam a mulher e o sagrado feminino. O Priorado de Sião é então a sociedade secreta que procura manter viva essa verdade e preservar o Sangue Real de Jesus, a Opus Dei, sua opositora, procura impedir a revelação dessa verdade, tudo isso é informado em uma conversa noturna na casa de um rico estudioso aficionado pelo Santo Graal, Sir Leigh Teabing.

 

Em meio a toda essa teoria da conspiração é nos informado que personagens ilustres da História tais como Isaac Newton, Leonardo Da Vinci e o próprio Saunière faziam parte do Priorado de Sião e eram mantenedores desse segredo, que o Santo Graal era uma mulher, Maria Madalena e que o fruto do ventre dessa mulher guardava a semente de Jesus. Por fim, na procura de Langdon e Sophie pelo Sangue Real descobre-se após desvendarem-se vários enigmas que a própria Sophie era descendente de Jesus e carregava o Sangue Real em suas veias.

 

Após verificarmos o modo como Brown descreve suas personagens e desenvolve o enredo do romance, podemos analisar a obra através do arcabouço teórico para análise ideológica presente em Thompson (1995, p.81), o que veremos detalhadamente nos tópicos a seguir.

 

2.3 Legitimação

 

 

Todos nós queremos dar legitimação ao que falamos e para isso nos utilizamos recursos lingüísticos, conscientes ou inconscientes, de modo que o nosso falar leva nosso interlocutor a aceitar as afirmativas ou negações que fazemos. A legitimação não é exclusiva a nenhum tipo de discurso, todos os discursos (religioso, político, familiar, acadêmico, científico, etc.) possuí sua forma de fundamentar aquilo que diz para seus interlocutores, é evidente que na sociedade moderna e pós-moderna os discursos legitimados através de provas científicas são os mais aceitos e mais utilizados na mídia de massa e até mesmo em conversas informais.

 

 

Segundo THOMPSON (1998, p. 164):

 

 

 

O terceiro aspecto da tradição é o legitimador. A tradição pode, em certas circunstâncias, servir como fonte de apoio para o exercício do poder e da autoridade. Este aspecto foi muito bem abordado por Max Weber. De acordo com ele, há três maneiras principais de estabelecer a legitimidade de um sistema de dominação. Reivindicações de legitimidade podem se basear em fundamentos racionais, envolvendo uma crença na legalidade de normas promulgadas (que Weber chama de ‘autoridade legal’); podem se basear em fundamentos carismáticos, implicando a devoção à santidade ou ao caráter excepcional de um indivíduo (‘autoridade carismática’); ou podem se basear em fundamentos tradicionais, envolvendo uma crença no caráter sagrado das tradições imemoriais (‘autoridade tradicional’).

 

 

 

Dos aspectos tratados por Weber, de acordo com a citação acima, podemos verificar que Dan Brown, em The Da Vinci Code, utiliza-se muito mais da legitimação através de fundamentos racionais, é claro, contudo, que os fundamentos racionais são construídos através de muitos outros artifícios em que Brown busca levar os seus leitores a acreditarem na lógica dos argumentos do livro.

 

O estilo do livro em Romance Moderno pode também ser entendido como um artifício para não se comprometer tanto com os argumentos colocados, tendo em vista que o autor não é especialista em nem uma das áreas que discute no livro, não poderia escrever um livro de uma forma acadêmica para provar seus argumentos, assim, escreve em forma de romance, que é um estilo envolvente, conduzindo o leitor emocionalmente a acreditar em seus argumentos. Veremos nesse capítulo os recursos utilizados por Brown para dar legitimação aos argumentos colocados em seu romance.

 

 

2.3.1 Racionalização

 

 

Dan Brown se utiliza da Legitimação por meio da Racionalização quando procura fundamentar sua história em um personagem importante da história, Jesus. Através de uma cadeia de raciocínios procura mostrar que Jesus se casou com Maria Madalena, teve uma filha chamada Sara, a igreja católica perseguiu essa filha por ser um desafio ao machismo dominante na igreja.

 

A relação de acontecimentos continua quando Brown vai gradativamente mostrando fatos que aconteceram na história e ligando esses fatos à Opus Dei, uma sociedade secreta controversa dentro do catolicismo e o Priorado de Sião, uma extinta sociedade, mas que Brown afirma estar viva e sendo protetora do segredo do Sagrado Feminino e da Semente de Jesus.

 

Alguns pontos importantes nas afirmações implícitas em The Da Vinci Code precisam ser esclarecidas para verificarmos a falácia dos argumentos de Brown:

 

O que a Bíblia diz sobre Maria Madalena? [13]

 

 

Lc 8.1-3 – discípula que foi liberta de demônios por Jesus e

2006

dava suporte a ele em suas viagens junto com outras mulheres.

 

Mt 27.55,56 – estava presente à crucificação. Em nenhum relato dos evangelhos ela é vista sozinha, sempre está com um grupo de mulheres (Mc 15.40,41; Jo 19.25), nunca é descrita isolada.

 

Mt 27.67 – no local da crucificação com a outra Maria, Mc

15.40 com a Maria mãe de Tiago, o jovem, e de José e Salomé, mais outras mulheres. As mencionadas eram importantes igualmente.

 

Mt 28.1 – como testemunha da ressurreição de Jesus, junto com outra Maria (Mc 16.1; Lc 8.2,3 apresenta ainda Joana e a mãe de Tiago).

 

Mc 16.9 – citada como aquela a quem Jesus apareceu e recebeu libertação de demônios. Lc 24.10 a apresenta numa comitiva.

 

João 20.11-18

 

É a única vez que Jesus e Maria Madalena estiveram sozinhos! Ela o vê ressuscitado! Alegre e surpresa se abraça a Ele!

Jesus, discreto, diz para ela aguardar a alegria no Reino dos Céus, com o Pai!

Ela sai de cena com a mensagem da ressurreição para levar adiante.

Alguns dizem que se tornou apóstola… Mas não como os 12 apóstolos!

A totalidade dos relatos bíblicos: 12 referências. Sempre acompanhada, jamais citada ou relacionada com Jesus de outra forma.

 

 

No livro The Da Vinci Code, Brown (2003) coloca as seguintes palavras na boca de Teabing:

 

 

And the companion of the Saviour is Mary Magdalene. Christ loved her more than all the disciples and used to kiss her often on her mouth. The rest of the disciples were offended by it and expressed disapproval. They said him, “Why do you love her more than all of us?” [14]

The words surprised Sophie, and yet they hardly seemed conclusive. “It says nothing of marriage.”

Au contraire.” Teabing smiled112, poiting to the first line. “As any Aramaic scholar will tell you, the word companion, in those days, literally meant spouse.”

 

 

Pontuemos os erros cometidos por Brown em suas afirmações feitas na fala de Teabing:

 

O texto do Evangelho de Felipe não foi escrito em aramaico e sim em copta[15], um desenvolvimento posterior do egípcio com caracteres gregos, sendo assim não temos como saber qual a palavra aramaica Jesus teria usado114, podemos somente supor115. No Novo Testamento grego temos a palavra guinaiki ( gu na i ki ), 116, em Lucas 2.5, que significa mulher, mas usada no sentido de esposa [16].

 

 

Lutzer (2004, p. 78) nos diz algo semelhante sobre o fato:

 

 

Naturalmente, poderíamos observar que esse texto não nos chegou em aramaico, mas em copta. Além do mais, a palavra para “companheira”, em ambas as línguas, é muitas vezes

usada em referência a “amizade” – de modo algum terá o

significado invariável de “esposa”

 

 

Se quiséssemos avançar para levantar um hipótese do uso aramaico da palavra, poderíamos consultar a Peshita[17], que traz em Marcos 15.40 a palavra nesha’ avn e aparece no plural em  Marcos 5.33 como antta’  Ftna  as mulheres. Ora, sendo o Evangelho de Felipe escrito em copta poderia utilizar a palavra s-hime (sHimeaq )[18] que é a palavra para mulher e traduziria o conceito aramaico de mulher, esposa, ou a palavra copta sheleet (Seleet) que é a palavra para casar, casamento.[19] Mas como temos somente a tradução é impossível inferir qual foi a palavra utilizada por Jesus na conversa com os discípulos no texto do Evangelho de Filipe. Além do mais, no texto do Evangelho de Filipe há as seguintes brechas no manuscrito: “E a companheira de […..]

Maria Madalena. […..amou] a ela mais que a [todos] os discípulos e [costumava] beijá-la [sempre] na […..]”, ou seja, a palavra “boca” não aparece nem mesmo no texto copta, há uma brecha no manuscrito, é uma conjectura com base no espaçamento das letras. Nos outros tópicos desenvolveremos mais a questão dos evangelhos gnósticos.

 

 

2.3.2 Universalização

 

Segundo Thompsom (1995, p. 83):

 

Outra estratégia típica é a universalização. Através dessa estratégia, acordos institucionais que servem aos interesses de alguns indivíduos são apresentados como servindo aos interesses de todos, e esses acordos são vistos como estando abertos, em princípio, a qualquer um que tenha a habilidade e a tendência de ser neles bem sucedido.

 

 

A legitimação continua através da Universalização. Brown utilizase de interesses específicos, no caso os interesses da Opus Dei, como se fossem os interesses de toda a igreja católica, o que não condiz com a realidade, tendo em vista que o catolicismo romano ter em seu meio diversos grupos, os mais diferentes: Carmelitas, Franciscanos, Beneditinos, Carismáticos, etc. Cada qual com suas idiossincrasias e interesses particulares que não incluem nenhuma perseguição à mulheres e nenhum interesse em esconder o sagrado feminino. Aliás, existem várias ordens católicas lideradas por mulheres e que tem interesses mais voltados à caridade e a assistência à mulheres vítimas de preconceitos, prostituídas e tantos outros interesses que não são os interesses particulares da Opus Dei.

 

Mesmo a Opus Dei, tem, na verdade, interesses específicos desconhecidos, o que serve como base para Brown explorá-los e direcioná-los na legitimação de suas idéias universalizando tais interesses ocultos como se fossem os interesses de todo o cristianismo.

 

 

2.3.3 Narrativização

 

O terceiro argumento utilizado para a Legitimação é a Narrativização, para isso Brown utiliza-se de dois fatos históricos de grande importância para o cristianismo: A pessoa de Constantino e o Concílio de Nicéia.

 

As posições e atitudes controversas de Constantino no passado, sua conversão tardia, no leito de morte, seu patente uso de símbolos e datas pagãs, sua influência para a realização do Concílio de Nicéia e a própria discussão do Concílio são argumentos utilizados pelo autor como exigências de legitimação inseridas no passado que buscam dar legitimação para os argumentos do autor no presente: que os livros da Bíblia foram decididos por Constantino e aqueles livros que davam suporte ao Sagrado Feminino foram excluídos por razões machistas.

Vejamos dados históricos sobre Constantino no Concílio de Nicéia, como nos conta Lutzer (2004, p. 40-41):

 

 

O código Da Vinci, assim como muitos textos ocultistas, afirma que Constantino e seus representantes decidiram eliminar livros específicos do Novo Testamento, excluindo tudo o que se opusesse a sua teologia do domínio masculino e a seu esforço pela repressão sexual.

Pude ler visão semelhante em The Templar revelation [A revelação dos templários], livro em harmonia com O código Da Vinci que alega apresentar a plausibilidade

histórica desses acontecimentos. (…)

 

(…) os dados históricos sobre Nicéia não trazem prova alguma de que Constantino e os representantes tivessem sequer discutido os evangelhos gnósticos ou qualquer outra coisa a respeito do cânon. Por mais que tentasse, não achei uma única linha nos documentos sobre Nicéia que registrasse algum debate sobre os livros que deveriam ou não entrar no Novo Testamento. Praticamente tudo o que sabemos sobre Nicéia vem do historiador Eusébio. Ora, nem ele nem mais ninguém dá qualquer sinal de que tais assuntos tivessem sido debatidos. Vinte decretos foram promulgados em Nicéia, e o conteúdo de cada um deles ainda está disponível. Nem um único diz respeito ao cânon.

 

Por sorte, consegui rastrear a fonte desse engano. O barão D’Holbach, em Ecce homo, escreve: “A definição dos evangelhos autênticos e espúrios não foi debatida no primeiro Concílio de Nicéia. Essa história é fictícia”. D’Holbach identifica Voltaire como a origem da ficção, mas, ao pesquisar mais profundamente descobrimos uma fonte ainda mais antiga para esse boato.

 

Um documento anônimo chamado Vetus Synodicon, escrito por volta de 887 d.C.; tem um capítulo dedicado a cada concílio realizado até aquela data. Todavia, o compilador acrescenta detalhes ausentes nos registros históricos. Em seu relato sobre Nicéia, ele escreve que o concílio tratou de assuntos como a divindade de Jesus, a Trindade e cânon.

Ele diz: “os livros canônicos e apócrifos foram diferenciados da seguinte maneira: na casa de Deus os livros eram colocados no chão, ao lado do altar sagrado. Então o conselho orava ao Senhor, pedindo que as obras inspiradas fossem encontradas em cima do altar, como de fato acontecia”. Está mais do que claro que isso não passa de lenda.

 

Não há menção alguma de tais procedimentos nos documentos principais que dizem respeito a Nicéia.

Ainda que essa história fosse verdadeira continuaria sem comprovação e afirmação de que o concílio rejeitou determinados livros do Novo Testamento por promoverem o feminismo ou a idéia de que Maria Madalena fora casada com Jesus.

 

 

Os documentos do Concílio estão disponíveis e eles não dizem nada sobre a aprovação do cânon [20] e a exclusão dos apócrifos por motivos machistas, mas Brown (2003), para dar legitimidade à sua ideologia pagã-feminista, utiliza-se de uma personagem histórica importante como Constantino e um Concílio importante como o de Nicéia para conduzir logicamente o seu leitor a acreditar nas afirmativas de seu livro.[21] A explicação mais lógica para a formação cânon do Novo Testamento é que o mesmo foi sendo formado e aceito por dois principais critérios: 1) a origem apostólica do livros e 2) o uso que a igreja cristã fazia do mesmo. Sendo assim, livros que não foram comprovados como tendo sido escritos por um apóstolo ou alguém ligado a um apóstolo eram imediatamente descartados e deixados de lado. No segundo caso, os livros que tinham dificuldades de provarem sua origem apostólica acabaram por serem aceitos pelo uso constante que a igreja cristã fazia deles.

 

Quanto aos livros chamados apócrifos ou pseudo-epígrafos[22] foram imediatamente rejeitados, eram pouco utilizados e quase ninguém os copiava, ficando assim sua preservação reservada à grupos dissidentes, chamados pelos primeiros cristãos de heréticos, que encontravam nesses livros algum apoio às suas doutrinas. Outros livros, como é o caso dos evangelhos e escritos gnósticos encontrados em 1945 em Nag Hamad, no Egito, eram traduções, muitas parafraseadas, de versões gregas mais antigas criadas para defender posições completamente diferentes das que estavam contidas nos chamados evangelhos canônicos.

 

A discussão ampla dessa questão não nos cabe aqui, todavia, é fato que não há qualquer prova de que fora Constantino quem determinara quais seriam os livros que comporiam a Bíblia, mas como ele é uma personagem histórica controversa na história da igreja cristã é usada por Brown como uma forma de legitimação de sua ideologia pagãfeminista.

 

 

2.4 Dissimulação

 

             

De acordo com Thompson (1995, p. 83):

 

 

Um segundo modus operandi da ideologia é a dissimulação. Relações de dominação podem ser estabelecidas e sustentadas pelo fato de serem ocultadas, negadas ou obscurecidas, ou pelo fato de serem representadas de uma maneira que desvia nossa atenção, ou passa por cima de relações e processo existentes. A ideologia como dissimulação pode ser expressa em formas simbólicas através de uma variedade de diferentes estratégias.

 

 

Thompson divide a Dissimulação em três estratégias básicas: 1) o deslocamento; 2) a eufemização e 3) o tropo. Comentaremos abaixo como tais estratégias de dissimulação são usadas por Brown para fundamentar suas idéias em The Da Vinci Code.

 

 

2.4.1 Deslocamento

 

Thompson (1995) usa o termo deslocamento para se referir a determinado objeto ou pessoa que é utilizado para se referir a um outro “…e com isso as conotações positivas ou negativas do termo são transferidas para outro objeto ou pessoa” (THOMPSON, 1995, p. 84).

 

A Dissimulação por Deslocamento é sutilmente utilizada por Brown para fundamentar sua ideologia pagão-feminista. Ele utiliza-se no livro de um jogo de palavras: Saint Graal com Sang Real. Também diz que existem mais de 80 Evangelhos quando na verdade só são conhecidos menos de 12. Faz ainda uma relação com os achados dos Manuscritos do Mar Morto com os de Nag Hamad, que realmente não têm relação.

 

Mais uma vez, é na fala de Sir Teabing que Brown (2003, p. 251) coloca essas afirmações:

 

 

More than eighty gospels were considered for the New Testament, and yet only a relative few were chosen for inclusion – Matthew, Mark, Luke, and John among them.

 

 

 Como o livro de Brown está em forma de romance ele faz afirmações sem dar qualquer evidência e fundamentação, utiliza a fala de suas personagens para validar suas idéias e assim não se compromete com as afirmações que indiretamente faz. Todavia, há no início do livro The Da Vinci Code uma afirmação comprometedora, Brown (2003, p. 1): “All descriptions of artwork, architecture, documents, and secret rituals in this novel are accurate.

 

Vejamos o que nos diz McDowell (2006, p. 39) sobre a precisão dos fatos colocados por Brown a respeito dos evangelhos:

 

Não havia mais de oitenta evangelhos. Por exemplo, a Coletânea Nag Hamadi, publicada em inglês em 1977, consistia apenas de quarenta e cinco títulos diferentes – nem todos eles eram evangelhos. Na verdade, ela menciona cinco trabalhos distintos de evangelhos: Verdade, Tomé, Felipe, Egípcios e Maria. A coletânea das Escrituras Gnósticas, de Bentley Layton tem apenas quarenta trabalhos, três dos quais levam o título de evangelhos e também são citados na Nag Hamadi. Na verdade, a maior parte desses trabalhos não era composta por evangelhos. A contagem mais generosa de documentos extra-bíblicos aparece em Havard, na obra Introduction to the New Testament [Introdução ao Novo Testamento], do professor Helmut Koester. Essa contagem chega aos sessenta, fora os vinte e sete livros do Novo Testamento. Entretanto, a vasta maioria desses livros não era composta por evangelhos.[23]

 

 

A citação de Mcdowell mostra que não há nenhuma precisão nas afirmações de Brown sobre documentos, mas por meio de deslocamento ele dissimula os fatos para defender sua ideologia pagã-feminista.

 

Entretanto, o deslocamento mais absurdo está nas informações que Brown nos dá a respeito do Manuscritos do Mar Morto, Brown (2003, p. 254-255):

 

 

Fortunately for historians,” Teabing said, “some of the gospels that Constantine attemped to eradicate managed to survive. The Dead Sea Scrolls were found in the 1950s hidden in a cave near Qumran in the Judean desert. And, of course, the Coptic Scrolls in 1945 at Nag Hammadi.

 

 

Os manuscritos do mar morto foram encontrados em 1946/1947 e se trata de aproximadamente oitocentos manuscritos do Antigo Testamento, provenientes de uma seita[24] ascética judaica, que se isolou nas cavernas do deserto da Judéia. Entre os manuscritos estão textos que vão desde o ano 250 a.C. até o ano 68 d.C.

 

Não há entre os manuscritos nenhum evangelho gnóstico e nenhum escrito neotestamentário, somente um minúsculo fragmento chamado de 7Q5, que pode ser um trecho de Marcos 6.52-53, mas que está ainda em debate.126 A questão é que não há documentos encontrados que provem a afirmação de Brown de que Constantino procurou erradicar esses evangelhos e felizmente para os historiadores eles foram encontrados em Qumran. Brown está deslocando os fatos para dissimular seus leitores a aceitarem sua ideologia.

 

 

2.4.2 Eufemização

 

O Dissimulação por Eufemização, se dá, em The Da Vinci Code quando Brown descreve de forma positiva o Priorado de Sião, quando sabemos, historicamente, que tal grupo era confuso e muitas vezes tolo, mas no livro é tido como o grupo protetor do segredo do Sangue Real e o Sagrado Feminino.

 

Um outro elemento de Dissimulação por Eufemização ocorre quando Brown valoriza o paganismo, que sabemos, em muitas de suas formas praticava o sacrifício de crianças, prostituição cultual, em que uma mulher era tomada do meio do povo para servir aos deuses como uma prostituta cultual tendo que ficar presa nos templos tendo relações sexuais com os adoradores daquele deus ou com os sacerdotes daquela religião.

 

O livro valoriza os rituais secretos como sendo uma forma de guardar segredos importantes que atravessam gerações, mas sabemos que em muitos rituais secretos, há, ainda hoje, sacrifício de crianças, mutilações, orgias macabras e outras atividades nada valorizadas pela sociedade moderna.

 

 

                                                                                                                      

66

126 para o debate completo, cf. THIEDE, Carsten Peter; D’ANCONA, Matthew. Testemunha ocular de Jesus: novas provas em manuscrito sobre a origem dos evangelhos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996

2.4.3 Tropo

 

Thompson (1995, p. 84) define sua compreensão desse recurso com as seguintes palavras:

 

 

Por tropo entendo o uso figurativo da linguagem ou, mais em geral, das formas simbólicas. O uso do tropo é, geralmente, confinado ao domínio da literatura, mas o uso figurativo da linguagem é muito mais amplo do que essa especialização disciplinar possa sugerir. Entre as formas mais comuns de tropo estão a sinédoque, a metonímia e a metáfora. Todas elas podem ser usadas para dissimular relações de dominação. A sinédoque envolve a junção semântica da parte a fim de se referir a uma parte. Essa técnica pode dissimular relações sociais, através da confusão ou da inversão das relações sociais, através da confusão ou da inversão das relações entre coletividades e suas partes, entre grupos particulares e formações sociais e políticas mais amplas – de modo tal que, por exemplo, termos genéricos como “os ingleses”, “os americanos”, “os russos”, passam a ser usados para se referir a governos particulares ou a grupos dentro de um estado nação. A metonímia envolve o uso de um termo que toma o lugar de um atributo, de um adjunto, ou de uma característica relacionada a algo para se referir à própria coisa, embora não exista conexão necessária entre o termo e a coisa à qual alguém possa estar se referindo. Através do uso da metonímia, o referente pode estar suposto sem que isso seja dito explicitamente, ou pode ser avaliado valorativamente, de maneira positiva ou negativa, através da associação com algo (…)

 

 

A preocupação de Thompson (1995) é mais como a análise do discurso ideológico dentro das estruturas de poder nas sociedades modernas, sendo o autor sociólogo, utiliza-se da análise das figuras de linguagem para evidenciar o discurso dessas classes dominantes em seus enunciados políticos. Embora seja importante essa análise dentro da estrutura social, para nós, a análise serve para a percepção dos elementos discursivos ideológicos presentes na obra literária. Em Brown (2003) o uso da estratégia de dissimulação por tropo (figura de linguagem), ocorre em The Da Vinci Code nas figuras:

 

1) Saint Graal como um símbolo do Sangue Real perpetuado por gerações e presente na nossa era; 2) O símbolo           que, segundo autor, é um símbolo do útero materno e está ocultamente presente na pintura da Santa Ceia de Leonardo Da Vinci

3)

 

Vejamos a citação de Brown (2003, p.257) em que essa simbolização ocorre:

 

 

Langdon winced. “Moving on, the female symbol, as you might imagine, is the exact opposite.” He drew another

symbol on the page. “This is called the chalice.”

 

 

 

 

 

Sophie glancep up, looking surprised.

Langdon could see she had made the conection. “The chalice,” he said, “resembles a cup or vessel, and more important, it resmbles the shape of a woman’s womb. This symbol communicates femininity, womanhood, and fertility.” Langadon looked directly at her now. “Sophie, legend tells us the Holy Grail. That is to say, the legend uses the chalices as a metaphor for something far more important.”

 

 

Percebemos os usos metafóricos e simbólicos que Brown faz para validar suas idéias, o uso de tropos é constante também em outras passagens em The Da Vinci Code, de modo que o leitor é envolvido em todo um conteúdo simbólico no romance.

 

 

2.5 Unificação

 

Thompson (1995, p. 86) nos explica sobre a unificação com as seguintes palavras:

 

Um terceiro modus operandi da ideologia é a unificação. Relações de dominação podem ser estabelecidas e sustentadas através da construção, no nível simbólico, de uma forma de unidade que interliga os indivíduos numa identidade coletiva, independentemente das diferenças e divisões que possam separá-los.[25]

 

 

 

 As duas estratégias que subdividem essa análise ideológica serão comentadas nos tópicos que seguem.

 

 

 

2.5.1 Padronização

 

Em The Da Vinci Code o autor procura Unificação através da padronização quando descreve o paganismo como se fosse uma unidade uniforme de doutrina e prática, quando é claro que historicamente nunca houve unanimidade no paganismo, tendo, isso sim, uma diversidade e animosidade muito feroz entre um tipo de paganismo e outro, já que os povos antigos viam seus deuses como superiores a outros deuses e quando guerreavam entenderiam que eram os seus deuses que estavam guerreando, vencendo o deus que fosse mais forte.

 

Também há Unificação por Padronização na obra, quando o autor coloca o gnosticismo como um sistema unificado de valores. Entretanto, sabemos também, que os grupos gnósticos eram os mais diversos tendo pensamentos até mesmo opostos.

 

Outra Unificação por Padronização se dá quando o autor, subliminarmente, afirma que os evangelhos gnósticos eram um conjunto também unânime de idéias. O fato é que há, entre os escritos gnósticos, poucos evangelhos e os que há não são unânimes em suas idéias. Por exemplo, o evangelho de Tomé é perceptivelmente machista.

 

 

2.5.2 Simbolização da unidade

 

A Padronização através da Simbolização da Unidade, em The Da Vinci Code, é exposta através do conceito do Sagrado Feminino como símbolo de unidade do paganismo e gnosticismo. Entretanto, as diversas formas de paganismo, nem sempre concordam em suas idéias de modo que essa simbolização se mostra só como uma maneira de defender a tese do livro sem qualquer fundamentação histórica.

 

 

2.6 Fragmentação

 

 Para Thompson (1995, p. 86) um outro modo de operação da ideologia é a fragmentação, em que

 

 

Relações de dominação podem ser mantidas não unificando as pessoas numa coletividade, mas segmentando aqueles indivíduos e grupos que possam ser capazes de se transformar num desafio real aos grupos dominantes, ou dirigindo forças de oposição potencial em direção a um alvo que é projetado como mau, perigoso ou ameaçador.[26]

 

 

Abaixo veremos os desdobramentos dessa estratégia da ideologia no uso que é feito em The Da Vinci Code.

 

 

2.6.1 Diferenciação

 

 Quanto ao desdobramento da fragmentação pela estratégia da diferenciação, Thompson afirma:

 

Uma estratégia típica de construção simbólica é a diferenciação – isto é, a ênfase que é dada às distinções, diferenças e divisões entre pessoas e grupos, apoiando as características que os desunem e os impedem de constituir um desafio efetivo às relações existentes, ou um participante efetivo no exercício do poder.

 

 

Isso significa que no discurso ideológico os enunciados procuram fazer uma divisão de modo a separar elementos ou idéias a fim de colocálos de uma forma dualista em que se opõem numa relação de poderes opostos. Entretanto, essas relações nem sempre existem e é facilmente verificável que há intercâmbio de relações entre elementos que parecem opostos, mas para fundamentar sua ideologia e levar o leitor às conclusões de sua tese, Brown (2003) utiliza-se da estratégia da diferenciação ao construir os seguintes elementos simbólicos:

 

 

  • Paganismo x Cristianismo
  • Sagrado Feminino x Sagrado Masculino
  • Opus Dei x Priorado de Sião
  • Evangelhos Canônicos x Evangelhos Gnósticos 5) Humanidade x Divindade de Jesus no cristianismo primitivo

Observemos mais uma citação de Brown (2003, p. 253):

 

“My dear,” Teabing declared, “until that moment in history, Jesus was viewed by His followers as a mortal prophet… a great and powerful man, but[27] a man nonetheless. A mortal.”[28]

 

 

A expressão “until that moment in history” é bem incisiva, busca convencer o leitor que a divindade de Jesus foi uma invenção de Constantino no Concílio de Nicéia e o autor utiliza-se de recursos gráficos como os itálicos para dar ênfase à palavra that e à palavra man.

 

A questão da divindade x humanidade de Jesus foi amplamente debatida nos quatro primeiros séculos da história da igreja cristã, entretanto, afirmar que Jesus era considerado somente um homem pelos seus seguidores até que Constantino resolveu torná-lo divino no Concílio de Nicéia é fragmentar os fatos opondo realidades sem fundamentá-las historicamente.[29]

 

Os primeiros escritos cristãos são evidentemente de punho dos próprios apóstolos, esse fato não é só uma teoria literária, existe evidência arqueológica material de cópias tão antigas quanto o ano 125 d.C. do Evangelho do Apóstolo João, cerca de 25 anos após a morte do apóstolo.[30]

 

 

2.6.2 Expurgo do outro

 

A Fragmentação pelo Expurgo do outro é constante em The Da Vinci Code na construção simbólica dos seguintes inimigos:

 

  • Constantino
  • Igreja Católica
  • Inquisição
  • Opus Dei
  • Os Evangelhos Canônicos e a Bíblia Cristã

 

Não comentaremos detalhadamente todos os pontos descritos acima, nos concentraremos nos mais importantes dentro dos objetivos de nossa análise, focando em dois pontos que consideramos os mais fundamentais na construção do discurso de Brown que são os pontos 1) Constantino e 5) Os Evangelhos Canônicos e a Bíblia Cristã.

 

Para tal análise utilizemos a seguinte citação de Brown (2003, p. 254-255):

 

…Teabing said, talking faster now. “Because Constantine upgraded Jesus’ status almost four centuries after Jesus’ death, thousands of documents already existed chronicling His life as a mortal man. To rewrite the history books, Constantine knew he would need a bold stroke. From this sprang the most profund moment in Christian history.” Teabing paused, eyeing Sophie. “Constantine commissioned and financed a new Bible, which mitted those gospel that spoke of Christ’s human traits and embellished those gospels that made Him godlike. The earlier gospels were outlawed, gathered up, and burned.”

“Na interesting note,” Langdon added. “Anyone who chose the forbidden gospels over Constantine’s version was deemed a heretic. The Latin word heretic derives from that moment in history. The Latin word haereticus means ‘choice.’ Those who ‘chose’ the original history of Christ

were the world’s first heretics.”

“Fortunately for historians,” Teabing said, “some of the gospels that Constantine attemped to eradicate managed to survive. The Dead Sea Scrolls were found in the 1950s[31] hidden in a cave near Qumran in the Judean desert. And, of course, the Coptic Scrolls in 1945 at Nag Hammadi. In addition to telling the true Grail story, these documents speak of Christ’s ministry in very human terms. Of course, the Vatican, in keeping with their tradition of misinformation, tried very hard to suppress the relese of these scrolls. And why wouldn’t they? The scrolls highlight glaring historical discrepancies and fabrications, clearly confirming that the modern Bible was compiled and edited by men who possessed a political agenda – to promote the divinity of the man Jesus Christ and use His influence to

solidify their own power base.”

“And yet,” Langdon coutered, “it’s important to remember that the modern Church’s desire to suppress these documents come from a sincere belief in their established view of Christ. The Vatican is made up of deeply pious men who truly believe these contrary documents coud only be false testimony”

(…) Constantine’s Bible has been their truth for ages.

Nobody is more indoctrinated than the indoctrinator.”

“What he means,” Langdon said, “is that almost everything our father taught us about Christ is false. As are the stories about Holy Grail.”

 

Essa construção simbólica dos elementos acima como inimigos procura preservar a ideologia pagão-feminista, mostrando esses elementos como opositores ferrenhos a essa ideologia.

Vejamos um trecho do livro em que essa construção é feita por Brown (2003, p. 253):

 

Sophie’s head was spinning. “And all of this relates to the Grail?”

“Indeed,” Teabing said. “Stay with me. During this fusion of religions, Constantine needed to strengthen the new Christian tradition, and held a famous ecumenical gathering known as the Council of Nicaea.”

Sophie had heard of it only insofar as its being the birthplace of the Nicene Creed.

“At this gathering,” Teabing said, “many aspects of

Christianity were debated and voted upon – the date of Easter, the role of bishops, the administration of sacraments, and, of course, the divinity of Jesus.”

“I don’t follow. His divinity?”

“My dear,” Teabing declared, “until that moment in history, Jesus was viewed by His followers as a mortal prophet… a great and powerful man, but a man nonetheless.

A mortal.”

“Not the Son of God?”

“Right,” Teabing said. “Jesus’ establishment as ‘the Son of God’ was officially proposed and voted on by the Council of Nicaea.”

“Hold on. You’re saying Jesus’ divinity was the result of a vote?”

“A relatively close vote at that,” Teabing added. “Nonetheless, estabilishing Christ’s divinity was critical to the further unification of the Roman empire and to the new Vatican power base. By officially endorsing Jesus as the Son of God, Constantine turned Jesus into a deity who existed beyond the scope of the human world, na entity whose power was unchallengeable. This not only precluded further pagan challenges to Christianity, but now the followers of Christ were able to redeem themselves only via the established sacred channel – the Roman Catholic Church.”

 

E também em uma outra passagem de Brown (2003, p. 251):

 

“Who chose which gospels to include?” Sophie asked.

“Aha!” Teabing burst in with enthusiasm. “The fundamental irony of Christianity! The Bible, as we know it today, was collated by the pagan Roman emperor Constantine the Great.”

 

Agora, ponto a ponto podemos verificar os fatos que contradizem essa afirmação.

 

2.6.2.1 O papel de Constantino no Concílio de Nicéia

 

Constantino é uma personagem controversa na história do cristianismo, entretanto, muitos fatos históricos de suas atitudes para com os cristãos e pagãos estão registradas em documentos oficiais e podem ser facilmente verificados. Bettenson (1983, p. 44-45) reproduz o famoso edito de Milão da seguinte forma:

 

 

O Edito de Milão, março de 313 [32]

Lactâncio, De mort. persec. XLVIII

Nós, Constantino e Licínio, Imperadores, encontrando-nos em Milão para conferenciar a respeito do bem e da segurança do império, decidimos que, entre tantas coisas benéficas à comunidade, o culto divino deve ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Assim, Deus que mora no céu ser-nos-á propício a nós e a todos os súditos. 4. Decretamos, portanto, que, não obstante a existência de anteriores instruções relativas aos cristãos, os que optarem pela religião de Cristo sejam autorizados a abraçá-la sem estorvo ou empecilho, e que ninguém absolutamente os impeça ou moleste… 6. Observai outrossim, que também todos os demais terão garantida a livre e irrestrita prática de suas respectivas religiões, pois está de acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão a liberdade de culto segundo sua consciência e eleição; não pretendemos negar a consideração que merecem as religiões e seus adeptos. 7. Outrossim, com referência aos cristãos, ampliando  normas estabelecidas já sobre os lugares de seus cultos, é-nos grato ordenar, pela presente, que todos que compraram esses locais os restituam aos cristãos sem qualquer pretensão a pagamento…

[8 e 9. As igrejas recebidas como donativo e os demais lugares que antigamente pertenciam aos cristãos deviam ser devolvidos. Os proprietários, porém, podiam requerer compensação.]

  1. Use-se da máxima diligência no cumprimento das ordenanças a favor dos cristãos e obedeça-se a esta lei com presteza, para se possibilitar a realização de nosso propósito de instaurar a tranqüilidade pública. 11. Assim continue o favor divino, já experimentado em empreendimentos momentosíssimos, outorgando-nos o sucesso, garantia do bem comum.

 

 

A citação acima deixa claro que Constantino não queria acabar com o paganismo e nem persegui-lo, mas sim permitir a paz no império, se essa atitude e outras dele tinham fins políticos são questões muito debatidas e que não podem ser descartadas, mas afirmar como quer Brown que Constantino é o criador do cristianismo e compilador da Bíblia é um absurdo histórico que nos leva simplesmente a verificar que o discurso pagão-feminista de Brown é sutilmente colocado em sua obra através do expurgo do outro, a criação de um inimigo para a fundamentação de sua ideologia.

 

Constantino foi só o financiador Concílio como foi de tantos outros sínodos e concílios, mas não fez parte das discussões teológicas, o que Lutzer (2004, p. 29) nos esclarece:

 

 

Constantino não se importava com pontos teológicos mais sutis. Logo, praticamente qualquer credo o teria deixado satisfeito, com a condição de que unificasse seus súditos. Como disse um historiador: ‘o cristianismo tornou-se tanto um caminho para Deus como um caminho para a unificação do Império’. O próprio Constantino fez o discurso de abertura, dizendo que a desunião doutrinária era pior que a guerra.

 

 

A questão discutida no Concílio de Nicéia foi a respeito das doutrinas de Ário, que negava que Jesus fosse igual a Deus. Ário, contudo, não negava que Jesus era filho de Deus, somente não aceitava a Trindade como concebida pela maioria dos cristãos com base nos

Evangelhos canônicos.[33]

 

Mesmo a decisão do Concílio sendo praticamente unânime, só dois bispos não aceitaram a decisão pela igualdade de Jesus com Deus, a controvérsia ariana se estendeu até 660 d.C., deixando claro que o Concílio não resolveu a questão definitivamente como Brown (2003) tenta provar ao seu leitor no capítulo 55 de seu livro através das falas de Teabing.

 

2.6.2.2 A formação dos Evangelhos Canônicos e a Bíblia Cristã

 

O cristianismo, inquestionavelmente é uma continuação do judaísmo do primeiro século, ainda que Brown (2003) tente associá-lo ao culto de mitra e às religiões de mistério do primeiro século, tais afirmações não são novas e já foram amplamente debatidas no século XIX chegando-se a conclusão que apesar de algumas semelhanças com essas religiões, o cristianismo é mesmo fruto de uma tradução judaica que aguardava a vinda de um messias redentor. Os achados do Mar Morto em 1947 mostraram que a chamada esperança messiânica era uma doutrina comum ao grupo de Qumran dentre outros grupos judaicos do

primeiro século tais como os fariseus e os zelotes.[34]

 

Como os cristãos tinham sua herança no judaísmo, usavam a mesma Bíblia que os judeus usavam, que já possuía um cânon de trinta e nove livros[35], todavia, por causa da esperança messiânica dos cristãos

aceitarem que Jesus era o messias prometido no Antigo Testamento, tiveram que formular sua teologia a partir das Escrituras do Antigo, mas sob a ótica dos ensinos de Jesus, assim a formação do cânon do Novo Testamento se deu no ensino dos apóstolos e de pessoas ligadas aos apóstolos que escreveram os evangelhos, o livro de atos dos apóstolos, as epístolas e o apocalipse, livros que constituem os 27 livros que temos hoje em nossas Bíblias.

 

Até o ano 100 d.C. o apóstolo João estava vivo e dificilmente alguém poderia aceitar que ele permitiria que alguém escrevesse algum material usando o nome dos apóstolos sem repudiar por completo tal escrito, sendo assim, qualquer livro que surgisse nesse período não sendo de cunho apostólico seria desprezado pela liderança da igreja de então.

 

Temos escritos de pessoas que estiveram junto com os discípulos e sucessores de João que nos contam como foram escritos os quatro Evangelhos, conforme transcreve Bettenson (1983, p. 57)  sobre um escrito de Papias, que vivem por volta do ano 130 d.C.[36]:

 

 

Toda vez que encontrei alguém que conversou com os antigos, perguntei-lhe diligentemente acerca dos ditos destes, do que André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus, ou qualquer outro discípulo do Senhor, costumavam narrar. Sempre pensei que tiraria menos proveito de livros e muito mais da palavra viva dos sobreviventes”.

  1. Papias transmite-nos outras narrativas do citado Aristião relativas aos discursos do Senhor e às tradições derivadas de João, o Ancião. Prazeroso em indicá-las aos estudiosos que as consultarão, acrescentarei ainda o que Papias anotou com respeito a Marcos, o evangelista. Eis suas palavras: “O ancião João contava que Marcos se tornou intérprete de Pedro e diligentemente, embora sem ordem, escreveu todas as coisas que, sobre ditos e fatos do Senhor, confiara à sua memória; pois pessoalmente, nunca viu nem seguiu ao Senhor, mas, como acabo de dizer, viveu com Pedro. Pedro pregava o Evangelho para benefício dos ouvintes e não para formular alguma história sistemática das palavras do Senhor.

Portanto, Marcos não errou escrevendo as coisas conforme

as tirava da memória; preocupava-o só uma coisa: nada omitir de tudo quanto tinha ouvido e não lhe acrescentar falsidade alguma~. Isto é o que conta Papias sobre Marcos.  Quanto a Mateus informa o que segue: “Mateus, de início, escreveu os “logia” ou oráculos do Senhor na língua do hebreu e cada qual interpretou da melhor forma possível”.

 

 

Esse testemunho antigo, juntamente com a imensa quantidade de manuscritos do Novo Testamento, comprovam que os escritos neotestamentários foram obras da mão dos apóstolos que foram testemunhas oculares de Jesus.[37] Por outro lado, os evangelhos gnósticos, escritos a partir de traduções do grego e somente feitas por volta do séc. IV d.C. Mesmo assim, Brown (2003) insiste em fazer crer que são escritos mais antigos e mais válidos que os evangelhos canônicos. O interesse de Brown em validar os evangelhos gnósticos e em expurgar os canônicos está na legitimação que quer dar à sua tese pagã-feminista.

 

 

2.7 Reificação

 

Para Thompson (1995, p. 87):

 

 

Um quinto modus operandi da ideologia é a reificação: relações de dominação podem ser estabelecidas e sustentadas pela retração de uma situação transitória, histórica, como se essa situação fosse permanente, natural, atemporal. Processos são retratados como coisas, ou como acontecimentos de um tipo quase natural, de tal modo que o seu caráter social e histórico é eclipsado. A ideologia como reificação envolve, pois, a eliminação, ou ofuscação, do caráter sócio-histórico dos fenômenos – ou, tomando emprestada a frase sugestiva de Claude Lefort, ela envolve o restabelecimento da “dimensão da sociedade ‘sem história’, no próprio coração da sociedade histórica”.

 

Como veremos nos desdobramentos dessa forma de manifestação ideológica, Brown (2003) se utiliza em muitos momentos desse recurso para levar seus leitores a aceitarem suas proposições.

 

2.7.1 Naturalização

 

Segundo Thompson (1995, p. 88) a estratégia da naturalização é quando uma criação social e histórica é tratada como um acontecimento natural ou como um resultado “inevitável de características naturais, do mesmo modo como, por exemplo, a divisão socialmente instituída do trabalho entre homens e mulheres pode ser retratada como um resultado de características fisiológicas nos sexos…

 

Dessa forma, quando Brown (2003) leva o leitor a acreditar que o fato da igreja católica romana dar ênfase no sacerdócio masculino se dá pelo fato de Constantino ter expurgado os evangelhos gnósticos, está usando da estratégia da naturalização.

 

2.7.2 Eternalização

 

Na obra de Brown há a Reificação por Eternalização nas seguintes instituições descritas:

 

Priorado de Sião – organização extinta por volta do século XII de nossa era, colocada no livro como se fosse uma instituição ainda presente e preservadora de um segredo;

 

Inquisição – fenômeno sócio histórico de grande relevância para igreja católica, mas que não existe mais com os mesmos interesses e ações, eternizada na obra como um fenômeno ainda presente na instituição católica.

 

2.7.3 Nominalização / Passivação

 

Podemos dizer que a Reificação por Normalização / Passivação é o elemento discursivo de maior presença em The Da Vinci Code para divulgação da ideologia pagão-feminista. O autor utiliza desse recurso quando valoriza os seguintes elementos: Atenção concentrada no gnosticismo; Ênfase nos Evangelhos Apócrifos e nos manuscritos de Nag Hamadi; Ênfase na valorização do Sagrado Feminino no paganismo.

 

Por outro lado, utiliza-se da Passivação nos seguintes elementos:

Apagamento do papel dos Apóstolos na transmissão textual da vida e obra de Jesus Cristo; Apagamento dos manuscritos canônicos, mesmo em Nag Hamadi;  Apagamento do Sagrado Feminino no catolicismo romano: Virgem Maria, Nossa Senhora da Aparecida; Nossa Senhora das Dores, etc, etc, etc;  Apagamento do aspecto machista de muitas formas de paganismo; Apagamento do Evangelho de Tomé, obra evidentemente machista e como parte dos evangelhos gnósticos encontrados em Nag Hamad.

 

Sobre a validade das afirmações de Brown (2003) sobre esses pontos já foram discutidas amplamente em tópicos anteriores, todavia, será importante colocarmos aqui a questão da omissão que o autor de The Da Vinci Code faz do Evangelho de Tomé, o Dídimo, também encontrado em Nag Hamad, mas que o autor omite, visto não ser interessante para defender sua ideologia pagã-feminista, conforme citado em Rodrigues (2004, p. 597):

 

Simão Pedro disse-lhe: “Que Maria saia do nosso meio, porque as mulheres não são dignas da vida!” Disse Jesus: “Vede, eu me encarregarei de fazê-la homem, para que também ela se torne um espírito vivo, semelhante a vós, homens. Pois cada mulher que se fizer homem entrará no Reino dos Céus.

 

É evidente que o gnosticismo trazia elementos machista, contradizendo a tese em The Da Vinci Code. Analisando esse trecho do Evangelho de Tomé verificamos que segundo a concepção teológica desse texto a mulher nem mesmo era considerada viva, ou seja, sem alma, e ainda, para que fosse salva necessitava ser transformada em homem.

 

Verificamos, portanto, nesse capítulo, que através do uso do arcabouço teórico de Thompson (1995) pudemos fazer uma leitura menos ingênua da obra de Brown (2003) de modo a verificarmos que traz um discurso ideológico pagão-feminista sutilmente delineado em sua obra.

 

Deixamos claro, todavia, que essa análise se trata de uma análise textual seletiva e que não pretende ser absoluta em suas conclusões, como bem comenta RESENDE & RAMALHO (2006, p. 141):

 

 

Assim como o conhecimento social é inevitavelmente parcial, a análise textual é inevitavelmente seletiva, no sentido de que escolhemos responder determinadas questões sobre eventos sociais e textos neles envolvidos e com isso abrimos mão de outras questões possíveis. Como Fairclough (2003a) registra, não existe análise objetiva de textos, uma vez que não é possível descrever o que se representa em um texto sem que a subjetividade do(a) analista participe da análise – ora, a escolha das questões a serem respondidas denuncia necessariamente as motivações particulares da análise, visto que dela derivam.

 

 

Considerações Finais

 

Com base nos princípios da Análise do Discurso Crítica, podemos analisar qualquer obra literária, texto jornalístico, charge, jornais televisivos, etc, revelando assim a ideologia ou ideologias subjacentes. A Análise do Discurso Crítica é um instrumento importante para o estudante de letras e lingüística fazer uma leitura menos ingênua da obra literária e da sociedade.

 

Nesse trabalho procuramos aplicar a Análise de Discurso Crítica em uma obra literária de larga divulgação de massa The Da Vinci Code, obra lida por várias camadas da sociedade, tanto acadêmicos quanto o público de massa em geral. Entretanto, escolhemos a análise dessa obra por perceber que a grande maioria das pessoas, mesmo acadêmicos, estavam fazendo uma leitura ingênua da obra, inclusive aceitando suas afirmações como verdadeiras. O presente trabalho teve então por objetivo, apresentar uma leitura Crítica através de instrumentos científicos para que a obra fosse lida de uma forma menos ingênua e percebendo-se a ideologia subjacente na mesma.

 

Através do arcabouço teórico para a análise ideológica de Thompson (1995) pudemos verificar que Brown (2003) quer conduzir o seu leitor a acreditar que os acontecimentos históricos por ele selecionados e distorcidos, conduzem logicamente à conclusão de que a verdadeira história de Jesus foi escondida através de vários artifícios políticos de Constantino, que segundo o autor de The Da Vinci Code é o verdadeiro criador do cristianismo como o conhecemos.

 

Por meio do intercâmbio de idéias e comprovações, notamos que Lutzer (2004) nos mostra que muitas da afirmações implícitas em Brown (2003) não passam de conclusões sem comprovação histórico-científica.

 

Também vimos que a história da Igreja Cristã não teve o desenvolvimento sugerido pelas falas dos personagens de Brown (2003), mas que têm uma complexidade muito abrangente, conforme verificamos nas várias citações de McDowell (1997), Bettenson (193), Walker (1981), citações que nos evidenciaram além de uma história diferente da sugerida por Brown (2003) sobre a Igreja Cristã, também uma história diferente da formação do cânon do Novo Testamento.

 

É claro que a nossa pretensão não foi ser absolutamente objetivos, pois como pudemos observar nas afirmações de Resende & Ramalho (2006), a ADC não tem por pretensão ser palavra final sobre a análise e interpretação de textos, mas busca um entendimento das obras literárias e dos enunciados conforme os mesmos se mostram presentes nas várias manifestações sociais em que os discursos estão inseridos.

 

O fato é que buscamos através da análise de uma literatura amplamente divulgada pela mídia de massa, fazer uma leitura mais profunda e crítica, unindo a teoria literária da ADC com os conhecimentos históricos e lingüísticos do campo teológico. Esperamos ter contribuído para essa leitura crítica e também para a compreensão da teoria da Análise do Discurso Crítica, maiores aprofundamentos o leitor poderá encontrar nas referências e notas de rodapé desse trabalho.

 

 

Bibliografia

 

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[1] Este artigo foi produto do TCC do curso de Licenciatura Plena em Letras Habilitação

Português/Inglês da Universidade Braz Cubas, Mogi das Cruzes, SP, 2007

[2] em inglês é denominada CDA Critical Discourse Analysis

[3] ainda que Thompson seja professor de Sociologia na Universidade de Cambridge, suas teorias de análise ideológica e sobre a influência da mídia na modernidade (THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998) são importantes para a ADC por ser uma metodologia lógica e estruturada sobre a análise de elementos ideológicos, tanto em textos escritos como em outras formas de mídia na sociedade moderna.

[4] Na tradução do livro de Thompson para o português (1995, p. 81) esse termo é traduzido como Estandardização, preferimos, contudo, usar a tradução de RESENDE &

RAMALHO (2006, p. 52) por entendermos ser melhor

[5] Muito do que está presente em Bakhtin é depois aperfeiçoado e desenvolvido nas várias teorias da análise do discurso, tanto na de linha francesa como na de linha americana.

[6] Mesmo Adão não pôde ter esse privilégio, já que trazia o discurso do próprio Deus em sua fala, cf. Gênesis 3.8

[7] Principalmente a partir do século XIX houve uma enxurrada de teorias sobre a formação do Novo Testamento e sobre a vida e obra de Jesus de Nazaré. O mais intrigante é que os estudiosos que fundamentaram novas teorias sobre o que chamavam de Jesus Histórico saíram do próprio meio cristão protestante, tais como Rudolf Bultman, Albert Schwaitzer, Paul Tilich e tantos outros. As teorias desses estudiosos ainda estão em debate, mas foram respondidas com igual erudição para tentar provar a veracidade dos fatos narrados no Novo Testamento.

[8] Preferimos citar as descrições que o autor faz das personagens na língua original em que o romance foi escrito, procurando evitar  assim a influência lingüística que uma tradução poderia trazer, buscando obter com isso o máximo de objetividade possível.

[9] Essa associação da religião sempre como sistema de valores é amplamente discutida e contestada por PERCY (2007) em seu livro Verdade Absoluta

[10] se a Opus Dei e as instituições católicas são ou não opressoras não nos cabe discutir aqui, nosso propósito é simplesmente perceber a utilização de elementos lingüísticos persuasivos no discurso de Brown

[11] FACT é uma página sem numeração antes do prólogo do romance colocada por Brown como fundamentação de alguns fatos narrados na obra, descrevendo-os como sendo verídicos, à parte da ficção do romance e dando subsídio histórico-teórico ao mesmo

[12] alguns autores chamam o enredo de trama

[13] devo essas observações ao Prof. Dr. Valdeir Contaifer em aula do Mestrado em

Teologia Bíblica no Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini em Julho de

[14] preservamos as aspas e os itálicos utilizados pelo próprio Brown 112 o sorriso de Teabing é utilizado aqui como uma ironia do autor mostrando a superioridade da personagem no suposto conhecimento que tem dos “fatos históricos” até então desconhecidos por Sophie.

[15] A versão copta do Evangelho de Filipe, é, possivelmente somente uma tradução de uma versão grega mais antiga, é bom lembrar também que esse escrito é do séc. III d.C. e dificilmente pode ser colocado como testemunha ocular dos fatos referentes a Jesus. 114 Estamos supondo a veracidade do evangelho de Filipe para força de argumentação apenas, já que até mesmo a veracidade dessa conversa de Jesus pode ser questionada 115 a palavra aramaica e hebraica para mulher ou esposa é  ‘ishâh (hVa’ i) 116 o termo é  guinê (gunh,) , mas como está declinada aparece aqui no dativo como gunaiki .

[16] A palavra para companheira em grego é koinwnoj, e significa um parceiro ou uma parceira, um amigo, amiga ou aliado, ocorre no Novo Testamento grego nas seguintes passagens: 2 Co. 8.23; 1 Pe. 5.1; Ap. 1.9, dentre outras

[17] Peshita ou Peshito é o nome que se dá à versão siríaca da Bíblia, no caso da tradução do Novo Testamento foi feita pela igreja da Síria por volta século II d.C., para maiores detalhes cf. FRANCISCO, Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica. São Paulo: Vida

Nova, 2005, p. 420-428

[18] a transliteração do copta está baseada na tabela de TREGELLES, Samuel Prideaux (tradutor). Geseniu’s hebrew and chaldee lexicon to the old testament. Michigan, USA: WM. B. Eerdman Publishing Company, s/d, Table of Alphabets

[19] as palavras coptas aqui registradas são analisadas conforme aparecem no Evangelho Copta de João de acordo com THOMPSON, Sir Herbert (Editor). The Gospel of St.

John according to the earliest coptic manuscript. London, UK: British School of Archaeology in Egypt University College & Bernard Quaritch, 1924, não tivemos acesso ao texto copta do Evangleho de Filipe para verificar a palavra exata que foi usada para companheira, só temos o que foi citado em inglês por Brown.b

[20] A palavra cânon é de origem grega (kanwn, – kanon ) e significa regra, regulamento, passou a ter o sentido teológico de padrão dentro da Teologia para diferenciar os livros escritos pelos apóstolos de Jesus e outros livros que surgiram posteriormente reivindicando autoria apostólica, mas por não terem comprovação dessa autoria foram chamados de apócrifos, palavra também de origem grega ( apv ok, rifoj – apócrifos), que significa escondido, secreto e que mais tarde assumiu na Teologia o sentido de espúrio, não sagrado.

[21] a igreja nunca decidiu oficialmente nada sobre o cânon, só decidiu sobre a inclusão de alguns apócrifos do Antigo Testamento bem mais tarde, em 1546, no Concílio de Trento, para maiores detalhes cf. MILLER, Stephen M. & HUBER, Robert V. A Bíblia e sua história: o surgimento e o impacto da Bíblia. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006 p. 174-15

[22] o termo pseudo-epígrafo ou pseudo-epígrafe é um termo teológico proveniente de duas palavras gregas pseudos + epígrafê e significa “falso escrito”. Termo utilizado na teologia para os livros que trazem nomes de personagens importantes da história judaica ou da história cristã como uma espécie de validação do conteúdo que trazem, mas que não foram realmente escritos pelos personagens dos quais usurpam o nome.

[23] os itálicos são do próprio McDowell

[24] a maioria dos estudiosos classificam essa seita como sendo os essênios e outros como saduceus, para um debate sobre isso cf. SHANKS, Hershel (org.). Para compreender os manuscritos do mar morto. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1993, p. 53-

[25] ainda que Thompson novamente está preocupado com as relações de dominação, o nosso foco, novamente se centrará no uso dessas estratégias no uso da linguagem.

[26] Em The Da Vinci Code a idéia é que o inimigo, caracterizado como o cristianismo é o grupo dominante e o paganismo/feminismo é o grupo dominado, todavia, nessa análise estamos invertendo a análise ideológica verificando como o discurso do livro usa a linguagem para levar o leitor a aceitar essa ideologia do dominado contra o dominante.

[27] Sobre o uso da adversativa no discurso ver Maingueneau (1997, p. 159-185), o que ele chama de “conectivos argumentativos”

[28] os itálicos são do próprio Brown

[29] é muito fácil afirmar qualquer coisa sobre Jesus, Bíblia, história da Igreja, principalmente em uma novela romântica como The Da Vinci Code, contudo, fundamentar as afirmações é mais complicado.

[30] Esse texto se trata de um fragmento de papiro contendo João 18.31-33. Ironicamente mais abaixo, num texto que está faltando no papiro (João 18.38), se encontra a passagem em que Pilatos pergunta a Jesus: “o que é a verdade?”

[31] os manuscritos do Mar Morto foram achados em 1947 e não em 1950 como diz o autor

[32] note que o edito se dá antes do Concílio de Nicéia em 325 d.C.

[33] para maiores detalhes sobre a questão ariana, cf. WALKER, Williston. História da Igreja Cristã. 3.ª Ed. Rio de Janeiro / São Paulo: Juerp / Aste, 1981, Vol I, p. 157-179

[34] a revolta judaica de 66 d.C. que durou até 70 d.C. com a destruição do templo de Jerusalém e a derrubada da fortaleza de Massada pelo exército do General Romano Tito, teve como motivação esperanças messiânicas de libertação do jugo romano. Mais tarde, em 132-135 um líder judaico chamado Simão Bar Kosiba, apelidado pelos seus seguidores de Bar Kokhva (abkwk rb),  filho da estrela, também inicio revolta de cunhos messiânicos contra Roma. Para maiores detalhes sobre a origem judaica do cristianismo e o messianismo do primeiro século cf. SKARSAUNE, Oskar. À Sombra do Templo: as influências do judaísmo no cristianismo primitivo. São Paulo: Editora Vida, 2004

[35] as discussões sobre o cânon do Antigo Testamento dentro do judaísmo foge ao escopo desse trabalho, mas pelo que entendemos do historiador Flávio Josefo e por uma citação de Jesus em Lucas 24.44, é certo que os judeus e os primeiros cristãos utilizavam os 39 livros que temos nas Bíblias protestantes como livros autorizados e reconhecidos como sagrados.

[36] Este escrito de Papias nos foi preservado por Eusébio de Cesárea em sua história eclesiástica

[37] para um aprofundamento nesse ponto cf. MCDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredito: evidências históricas da fé cristã. 2.ª ed.  São Paulo: Editora Candeia, 1997

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