Romanos 1.1-7

Romanos 1.1-7 – Identificação do apóstolo; do evangelho que ele prega e saudações à igreja que está em Roma

por

José Ribeiro Neto

Pastor da Igreja Batista do Vale, Vale das Virtudes, SP. Diretor Pedagógico do Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini. Doutorando e Mestre em Estudos Judaicos pela Universidade de São Paulo, Mestre em Teologia Bíblica do Antigo Testamento pelo Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini.

1 PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. 2 O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, 3 Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, 4 Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor, 5 Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, 6 Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo. 7 A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. [1]

 O primeiro verso da carta é sucinto, porém abrangentes em ensinamentos. Paulo se apresenta como apóstolo, título dado aos doze, a Paulo e aos que são enviados como plantadores de igrejas[2]; também destaca que seu apostolado faz parte de um chamado do Senhor, uma separação que Deus fez a Paulo, outrora perseguidor da Igreja, agora é alguém separado para servir ao Senhor que o chamou. O apóstolo especifica mais ainda esse chamado e separação dizendo que ele é servo[3], que foi “separado para o evangelho”, ou seja, seu ministério é a propagação das boas novas de salvação[4].

O verso 2 é surpreendente, pois Paulo explica que o termo “evangelho” é mais abrangente do que comumente se entende, a expressão O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras” deixa notório a antiguidade do evangelho, não é somente um anúncio iniciado por Jesus Cristo e seus discípulos, o evangelho foi anteriormente anunciado também pelos “profetas nas santas escrituras”, sendo assim, o apóstolo estabelece a mensagem de Jesus, dos discípulos e dele como uma continuidade das “boas novas de salvação” e não uma novidade de uma mensagem estranha.

Em outras passagens, Paulo torna clara essa sua interpretação do evangelho. Em Gl 3.8 lemos: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.. Essa é uma revelação maravilhosa, o primeiro a receber a mensagem do evangelho foi Abraão, dessa forma, entendemos, através da explicação de Paulo, que o evangelho diz respeito a toda a Escritura, quer seja o AT, quer seja o NT. O evangelho é a própria revelação das Escrituras Sagradas, desde Gênesis até o Apocalipse. Não é uma mensagem estranha que passou a ser anunciada somente a partir de Jesus.

O Evangelho que Jesus pregava e que seus discípulos propagaram, é a mensagem de salvação que Deus revelou na Bíblia Sagrada, desde Moisés até João. Deus se utilizou de homens escolhidos, separados, para que fossem canais de sua inspiração.[5]

No verso 3, o apóstolo continua sua argumentação estabelecendo a relação do conteúdo do evangelho, a respeito do que trata essa mensagem que foi pregada desde Abraão, Moisés, passou a ser pregada pelos profetas, por Jesus, os discípulos e agora por Paulo, do que se trata essas boas novas de grande salvação: “Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne”. Esse verso destaca Jesus como filho de Deus, não um mero profeta, mas o próprio Deus que se fez carne (Jo 1.1’14).[6]

A expressão “descendência de Davi segundo a carne”, estabelece a messianidade de Jesus, ou seja, Jesus é o Cristo, o Messias[7], o prometido nas Escrituras desde Gn 3.15, do qual também todos os profetas falaram. Toda a interpretação neotestamentária está centrada na pessoa do Messias, o Cristo, sendo assim, a mensagem do Novo Testamento é cristocêntrica ou messiânica. Os escritores do NT não entendem o AT de outra forma, para eles a vinda de Jesus estabeleceu o cumprimento das profecias, e, a partir de agora a era messiânica estava inaugurada por Jesus e pela Igreja. A expressão final do verso 3 é importante, pois deixa claro que Jesus é descendente de Davi, somente “segundo a carne”, pois Jesus, como filho de Deus, ou seja como pessoa da Trindade Santa, já existia, porém, em sua encarnação, em sua vinda à terra, ele nasceu como homem e por isso é chamado filho de Davi, mas eternamente ele é filho de Deus.

O quarto verso utiliza poucas palavras, mas novamente, essas palavras têm uma grande dimensão de significados, pois nessas breves expressões há muita teologia implícita. Paulo diz que Jesus foi “Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor”. Essas palavras mostram que Jesus, mesmo sendo filho de Deus, obteve a vitória pelo que passou, sua conquista não é meramente estabelecida pelo que ele já era, mas pelo seu sacrifício na cruz, que culminou na sua ressurreição, a vitória declarada.[8] Também o destaque na pessoa do Espírito de santificação ou o Espírito Santo, que é relatado em outra passagem ligada à ressurreição (Rm 8.11). Esse Jesus, Messias, filho de Deus, descendente de Davi segundo a carne, é chamado por último de Senhor, título sempre destacado por Paulo, que sempre se coloca como servo desse glorioso Senhor.[9]

O verso 5Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome”, destaca que o Senhor anteriormente citado é quem dá a graça (no grego charis, “graça, favor imerecido”) e apostolado e tudo o que é recebido da parte desse magnífico Senhor é para “a obediência da fé”, a graça e o chamado que o Senhor nos concede deve nos levar a humildade em obedecê-lo e servi-lo na fé[10] que temos nele.

A expressão “entre todas as gentes”, pode ser traduzida como “entre todos os gentios” ou “entre todos os não judeus”, dessa maneira Paulo estaria destacando a ênfase de seu apostolado, a pregação do evangelho entre os não judeus e por isso ele é chamado de apóstolo dos gentios. A expressão final do verso “pelo seu nome” é expressão comum no NT, o nome[11] destaca a sua essência, a autoridade que ele obteve pela sua obediência, morte e ressurreição e que agora ele transfere à Igreja, o único veículo que agora ele utiliza para divulgar seu nome, sua pessoa.

Os versos 6 e 7 6 Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo. 7 A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”, fazem o relacionamento com o dito anteriormente com a Igreja em Roma, estabelecendo o vínculo entre o apóstolo Paulo e a Igreja na cidade de Roma. Assim como ele é chamado, eles também o são, assim como ele pertence ao Senhor Jesus, o Messias, assim também eles pertencem a Ele, são amados de Deus e chamados santos, ou seja, assim como Paulo foi separado, eles também são separados.[12]

 

Aplicações práticas

  1. Assim como Paulo se coloca como servo, escravo, também necessitamos nos colocar nessa posição, Jesus é o nosso Senhor, nosso dono, nessa posição temos somente deveres;

 

  1. Paulo entende que foi chamado e separado para ser apóstolo e estabelece também esse vínculo com os crentes de Roma, que também são chamados e separados pelo mesmo Senhor. Todos os crentes então têm um chamado que precisam entender e desempenhar na Igreja de Cristo.

 

  1. O evangelho deve ser entendido não somente como uma doutrina nova estabelecida no NT, mas como uma expressão que significa “Toda a Escritura”, “Toda a Palavra de Deus”, pregada desde Abraão até agora. Sendo assim, devemos anunciar às pessoas não somente uma nova religião, mas o antigo chamado de Deus ao homem “Onde estás?”. Assim, deixemos claro que o ser humano está afastado de Deus e por isso Deus estabeleceu seu evangelho, desde os tempos antigos, e é essa palavra que anunciamos.

 

  1. Jesus não foi só um profeta, é o Filho de Deus, ou seja, o próprio Deus que se fez carne, ele é também o Cristo, o Messias prometido nas Escrituras, assim é filho de Davi segundo a carne, para se cumprir as Escrituras. Ele obteve a autoridade pela sua morte, a qual culminou em sua ressurreição pelo Espírito de Santidade. Por isso temos a autoridade que nos é dada em seu nome.

 

  1. A vitória de Jesus na ressurreição nos leva à obediência por fé, a qual recebemos pela graça (favor imerecido), na qual ele também nos chamou e que deve ser propagada a todas as nações.

 

  1. Somos de Jesus, crentes nele, Igreja dele, não importa a localização e em qual igreja local congregamos, se cremos em Jesus e em seu evangelho somos propriedade dele, ele é o nosso Senhor.

[1] Todas as citações bíblicas são da versão Almeida Corrigida Fiel (ACF, 1995), exceto quando especificada outra versão.

[2] Primeiramente o título era dado àqueles que viram Jesus ressuscitado, posteriormente, no NT, é uma descrição de um dom ministerial relacionado aos que são enviados como missionários (do verbo grego apostelô, enviar). O apóstolo era um representante do seu mestre, ele mesmo não trazia sua própria autoridade, mas a autoridade recebida do seu senhor. Diferente do título de apóstolo utilizado hoje, que acabou por ser tornar um cargo hierárquico.

[3] O termo grego dulos, assim como o termo hebraico ’eved, significa também escravo.

[4] A palavra evangelho vem do grego euanguelion, que significa “boas novas”, “boas notícias”, é o termo utilizado no NT para se referir à mensagem de Jesus Cristo.

[5] O termo inspiração é um termo técnico utilizado para se referir à supervisão de Deus ao selecionar e permitir que o material contido nas Escrituras fosse perfeito, infalível e inerrante em tudo que afirma. Esse processo se deu desde Moisés (cerca de 1500 a.C.) até João, o apóstolo (cerca de 100 d.C.). Deus se utilizou de mais de 40 escritores, cada um possuía sua característica e seu estilo próprio de escrever. O Senhor respeitou o estilo e a característica de cada um, mas impediu que eles colocassem nas Escrituras material diferente ou estranho à vontade divina, supervisionando assim, tudo o que a Escritura Sagrada contém, sendo portanto isenta de qualquer erro. A inspiração cessou com o último apóstolo, João, portanto, o termo deve ser utilizado mais tecnicamente somente aos autores da Bíblia. Utiliza-se tecnicamente o termo “iluminação” quando se fala de outros autores cristãos que escrevem obras de grande profundidade e utilidade para o desenvolvimento da fé cristã, contudo o termo “inspiração” é utilizado somente para os autores das Escrituras Sagradas. Os textos que descrevem a inspiração são: II Tm 3.16, onde aparece o termo grego “theopneustos” que significa sopro de Deus, ou seja, a ideia é que Deus soprou e os autores receberam o sopro, “foram inspirados”. Também em II Pe. 1.21 diz que os homens santos foram inspirados, a palavra grega nesse texto é “feromenoi, “foram conduzidos”, “foram carregados”, como um navio à vela que é conduzido pelo vento.

[6] Nos escritos sobre a obra e vida de Jesus, chamados Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João, a expressão “filho de Deus” está intimamente relacionada à divindade de Jesus.

[7] A palavra grega “Chistos” é utilizada para traduzir a expressão hebraica “Mashia, ambos os termos significam “ungido”.

[8] Em outras partes de NT nota-se a importância da doutrina da ressurreição, os relatos do evangelho dão forte ênfase à ressurreição de Jesus (Mt 28.1-20; Mc 16.1-8; Lc 24.1-12; Jo 20.1-10), os escritos paulinos também destacam essa doutrina (I Co 15; I Ts 4.13-18).

[9] O termo grego “kyrios”, Senhor, é utilizado nas escrituras neotestamentária para traduzir o nome sagrado de Deus no AT e também o termo hebraico “Adonai”, “Senhor”. Por isso, os cristãos primitivos se recusavam a chamar César Senhor, pois negava-se a atribuir divindade ao imperador e igualá-lo ao único Senhor, Jesus Cristo.

[10] A expressão está relacionada à obediência do evangelho, sendo fé como sinônimo da doutrina do evangelho que devemos obedecer (ver Gl 1.20-24; Jd 1.3).

[11] Diferente da prática comum no ocidente, de dar nome à criança simplesmente por um aspecto fonético, no oriente, o nome tinha grande importância pois estava ligado aos acontecimentos relacionados ao dia do nascimento do bebê ou, mais comumente, à personalidade e características da criança. A expressão “em nome de Jesus”, portanto, significa “na autoridade dada por Jesus”, “no poder concedido por Jesus”.

[12] Tanto a palavra grega haguios, quanto a palavra hebraica qadosh, significam: santo, separado do uso profano para o uso exclusivo de Deus.

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