A Parábola das dez virgens – Uma abordagem acerca do enfoque das virgens néscias em relação à realidade das igrejas evangélicas na última década

A Parábola das dez virgens – Uma abordagem acerca do enfoque das virgens néscias em relação à realidade das igrejas evangélicas na última década

 

Simone Falchet de Lima Marques Sá[1]

 

Resumo

O presente artigo visa traçar um paralelo acerca do comportamento da igreja nos últimos anos em relação à parábola em epígrafe proposta por Jesus de modo a demonstrar a absoluta carência e premente necessidade de leitura e meditação das Escrituras por parte do crente de modo a perseverar e estar vigilante até a volta gloriosa do Senhor.

Palavras-chave

Virgens Néscias. Virgens Prudentes. Palavra de Deus. Cristão. Vigiar.

Introdução

A igreja de Cristo vive um momento extremamente delicado, no qual a abertura de igrejas sem precedente nas últimas décadas, embora acabe por refletir o mandamento do Senhor no sentido de levar o evangelho a toda criatura (Mt 28.19), tem sido alvo de questionamentos, notadamente ante a carência de profundidade no estudo da Palavra.

Em verdade o que se verifica é a expressiva ausência de leitura e estudo da Palavra que leva a perceber o aumento da necessidade de aconselhamento nas igrejas, o qual poderia em grande medida ser evitado, caso houvesse conhecimento basilar das Escrituras e em consequência, uma prática efetiva.

A presente parábola proposta por Jesus, mostra a consequência nefasta da ausência de perseverança do crente no que concerne às verdades absolutas e inerrantes contidas na Palavra de Deus.

Evidentemente, não poderá o cristão defender-se das astutas armadilhas do maligno, se não utilizar as armas fornecidas pelo Senhor devidamente afiadas em seu coração e sua mente, o que por óbvio, somente pode ocorrer com algum esforço e dedicação, jamais por osmose.

1.             Entendendo a parábola

Prima facie, é de absoluta relevância entender o pano de fundo a embasar esta história contada por Jesus de forma didática, a qual é tão significativa e extremamente profunda que se encontra apenas e tão somente descrita no Livro de Mateus (25.1-13). Embora a presente parábola esteja ligada a anterior, qual seja, dos dois servos (Mt 24.45-51), haja vista o conjuntivo que as relaciona, esse artigo apenas se valerá de uma breve análise sobre a narrativa de Jesus acerca das Dez Virgens.

Relata Wiersbe que:

 (…) o casamento era realizado em duas etapas. Primeiro, o noivo e seus amigos iriam até à casa da noiva buscá-la. Em seguida, noiva e noivo voltavam para casa do noivo onde era realizada a festa de casamento.” (2012, p.119)

Alguns estudiosos, descrevem o casamento mencionado por Jesus, como uma solenidade que era composta por três atos. O primeiro se referia a um contrato formal de compromisso entre os pais dos noivos. Posteriormente, era realizada na casa da noiva uma cerimônia na qual eram pactuadas promessas de parte a parte e por fim, o casamento propriamente dito, no qual o noivo se dirigia juntamente com seus amigos à casa da noiva para buscá-la, levando-a para a residência de seu pai.

Snodgrass aponta que: “Durante o período entre o noivado e o casamento, que poderia se estender por vários anos, a jovem permanecia na casa dos pais.” Tal comportamento denota a seriedade do compromisso, bem ainda a formalidade a ser observada. (2017, p. 711-712)

Digno de nota é o fato de que ao trazer sua noiva, esta deveria estar acompanhada de dez virgens, possivelmente, suas amigas, as quais deveriam estar munidas de lâmpadas ou tochas, de modo a iluminar o caminho dos nubentes, uma vez que tais cerimônias ocorriam à noite, conforme descreve a maioria dos comentários, v.g., O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento, com recursos adicionais (2010, p.75)

Referidas lâmpadas são descritas por Keener como tochas ou bastões de madeira contendo em sua ponta panos embebidos em óleo. Vislumbra-se que o fogo contido nestas tochas tinha duração de cerca de 15 (quinze) minutos, quando então, deveria haver a substituição por “(…) outros farrapos embebidos em óleo, formando novas tochas”. ( 2017, p.123).

Há de ser ressaltado que o número de dez virgens, se refere ao costume judaico a ser observado em ocasiões pontuais e de grande relevância como uma fundação de sinagoga, realização de circuncisão, celebração da páscoa ou matrimônios (HENRY, 2012, p.329). Constata-se   tal minúcia quando do resgate de Boaz a Rute no Livro do mesmo nome (Rt 4.2), em que este varão “tomou dez homens dentre os líderes da cidade (…)” como testemunhas da negociação.

O texto bíblico relata que ante a demora do noivo, as virgens tiveram sono e vieram a dormir. Porém, ao ouvirem que ele vinha chegando, despertaram e cinco das virgens, cognominadas néscias, perceberam que não possuíam mais azeite para suas tochas, o que as impediria de seguir o cortejo nupcial, enquanto as outras cinco, prudentes, por estarem preparadas, carregando provisões de óleo, participariam das bodas.

Saindo as virgens loucas a procura de azeite para adquiri-lo, quando de seu retorno, não lograram entrar na festa, haja vista a porta haver se fechado. E esta parábola não poderia terminar de pior forma para essas desavisadas virgens, pois ao rogarem que o noivo abrisse a porta, este respondeu de forma categórica que não as conhecia.

Em arremate, Jesus termina esta parábola alertando os ouvintes acerca da necessidade de vigilância, ante a evidente surpresa acerca do retorno do Filho do homem, o Messias.

2.         Possíveis interpretações

 

O cerne desta parábola está na prontidão da noiva que pode ser interpretada como sendo a igreja que deverá estar preparada para a o retorno do Messias, o noivo.

Assim, podem as dez virgens ser representativas da igreja, dividida em dois grupos à espera da segunda vinda de Cristo. Esses grupos seriam os prudentes e preparados e os loucos ou néscios que podem ser definidos como pessoas que embora frequentando e seguindo ritos em igrejas, efetivamente não se preparam para a vinda do Senhor.

Há Também a interpretação de que além do noivo ser uma representação de Cristo e as dez virgens serem pessoas que se entregaram à fé no Salvador, aponta Snodgras que “(…) o azeite representa as boas obras de amor e o sono, a morte: (…)” (2017, p. 713)

Carson acrescenta ainda, a demora como atraso da parúsia, bem ainda a rejeição das noivas insensatas como sendo o julgamento final.

Existem, contudo, estudiosos como G. Bornkamm, aluno da escola liberal de Butmann, que consideram a parábola sub examen, como criação artificial do apóstolo Mateus, fruto de seu anseio escatológico, uma vez que a narrativa não condiz “(…) com os costumes matrimoniais do século I (…)”. (SNODGRAS, 2017, p. 713).

Outra possibilidade proposta, não menos interessante, é de que o noivo seria o próprio Deus quando de sua vinda para o julgamento da nação eleita – Israel. E ainda que apenas após a ressurreição de Jesus, houve a adaptação desta história de modo a representar as virgens néscias como Israel e as prudentes como os gentios.

Segundo preleciona Snodgras:

(…) faria todo o sentido se Jesus estivesse se referindo a vinda de Deus. Um número significativo de estudiosos entende que este foi o propósito de Jesus ao contar esta parábola. Ele se encaixa à pregação de Jesus acerca da vinda do Reino e a parábola expressaria a alegria da salvação presente com Jesus e adverte as pessoas a não desperdiçarem esse tempo de alegria. (2017, p.717-718)

Carson, por sua vez, obtempera que é o despreparo para aguardar a demora do noivo o ponto fulcral da parábola, sendo isso o que distingue as virgens néscias das virgens prudentes. Para ele, não houve esquecimento por parte das loucas em levar o azeite, mas desatenção em não levar quantidade suficiente. (2010, p 593)

Assim, segundo teólogo e professor supramencionado, o essencial é estar atento e preparado para a vinda do Senhor.

 

3.             A realidade do cristão na atualidade

Uma das formas de preparação, talvez a mais relevante deve se dar através da leitura e meditação das Escrituras de forma constante e eficiente, de modo a realizar o processo da santificação até a vinda gloriosa do Senhor.

Estudos indicam o aumento do número de pessoas que se intitulam cristãos. O crescimento do número de igrejas na última década foi exponencial. Nesse período, a cada 6 (seis) dias, por exemplo, a cidade de São Paulo ganhava uma nova igreja evangélica.[2].

Desde 1991 iniciou-se um aumento significativo das igrejas evangélicas, alavancados através das denominações pentecostais e neopentecostais. Neste mesmo ano os evangélicos representavam apenas 9% (nove por cento) da população brasileira.

O censo do ano de 2000 revelou um crescimento de 15,4% (quinze virgula quatro por cento), enquanto o de 2010 indicou novo aumento, subindo para 22,2% (vinte e dois virgula dois por cento), o que representava à época, cerca de 42 milhões de pessoas.

Segundo a Folha de São Paulo, o instituto Datafolha através de suas pesquisas, obteve a constatação de que atualmente os evangélicos representam 32% (trinta e dois porcento) da população brasileira, havendo previsão de crescimento em mais 10% nos próximos sete anos.

Numericamente, na última década houve a abertura de 1.633 igrejas só no município de São Paulo e em 2020, foram 2.186, o que foi constatado através dos números do IPTU.[3]

Embora em um primeiro momento, tais estatísticas e estimativas possam se revelar animadoras no sentido de que a prática do “ide” determinada por Jesus em Mt 28.19-20 tem sido cumprida, a realidade pode demonstrar muitas vezes apenas um inchaço evangélico nas igrejas e não a efetiva conversão genuína de seus membros.

Pesquisas apontam que apenas pequena parte dos evangélicos leem regularmente as Escrituras.

Essa realidade não se configura apenas no Brasil, onde a leitura em si até de livros seculares tem diminuído drasticamente.  Nos Estados Unidos, país de raiz protestante, um estudo realizado em 2016 da LifeWay Research constatou que uma a cada cinco pessoas disse já haver lido a Bíblia toda pelo menos uma vez em toda vida. E mais da metade confessou não ler com regularidade.

Fazendo-se uma analogia de parte dos cristãos com as virgens néscias, aponta Matthew Henry que elas estavam apenas se preocupando com as aparências, levando azeite apenas para aquele momento, mas não se prevenindo, caso o noivo demorasse, revelando em si um caráter de hipocrisia.

E ele segue sua narrativa, afirmando que:

1. Não tem princípios. Elas têm uma lâmpada de profissão de fé nas mãos, mas não têm, nos seus corações, aquele estoque de conhecimento sólido, disposições enraizadas e resoluções firmes, que são necessárias para conduzi-las em meio aos serviços e às provações da condição atual. Elas agem sob a influência de estímulos externos, mas não tem vida espiritual; como um comerciante que se estabelece sem um estoque, ou como a semente no solo rochoso, à qual falta raiz. 

2.Elas não têm a perspectiva do que há de vir, nem fazem provisões para isso. Elas traziam as lâmpadas para uma exibição no presente, mas não tinham azeite para uso futuro. Esta negligência é a ruína de muitos que professam a fé; eles só se preocupam em se mostrar elogiosos àqueles que estão à sua volta, com quem conversam hoje, e não em se tornar provados por Cristo, diante de quem deverão comparecer; como se algumas de suas atitudes fossem suficientes, desde que se mostrassem suficientes para o tempo presente. (HENRY, 2012, p.  329)

Importante observar a necessidade de preparação, uma vez que em mais de uma oportunidade, o Senhor indica que seu dia virá como um ladrão, ou seja, sem qualquer prévio aviso (Mt 24.42-44; 2Pe 3.10).

4.             A Bíblia como alimento infalível e lâmpada que não se apaga

Segundo aponta Herbert Lockyer, tal como Carson, conforme já mencionado, “O ponto central dessa narrativa é estar preparado para a vinda do Noivo.” (1999, p.274)

Ele continua seu pensamento, afirmando que a parábola das dez virgens é direcionada a pessoas que ao menos algum dia tenham demonstrado alguma preparação para a vinda do Senhor.

Aponta ainda que, para Orígenes[4] o azeite eram as boas obras, enquanto para Lutero, símbolo do Espírito Santo. Mas que a par de quaisquer divergências, nossa obrigação pessoal cinge-se à vigilância constante.

Assim, verifica-se que a falta de leitura e meditação na Palavra de Deus, conforme determinado em Js 1.8, pode ser considerado fator preponderante para a flacidez na fé e falta de perseverança, o que segundo a parábola em análise, resultará em um não reconhecimento por parte do Senhor daquele que considera a si mesmo um crente em Jesus.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Bíblia nos ensina em Sl 119:105, de modo cabal que “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho.”

Evidentemente, o que se pode concluir é que se o povo de Deus não ler e praticar toda Sua Palavra, tomando-a como efetivo manual de vida, certamente ficará no escuro.

Assim, considerando-se que a Palavra de Deus é a luz que pode alumiar o caminho do cristão, a leitura, o manejo e a meditação constante surgem como único meio capaz de assegurar uma trajetória por esta terra de modo a ser reconhecido ao final pelo Senhor.

 

BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Nova Versão Transformadora. São Paulo: Mundo Cristão, 2018.

BÍBLIA. Português. Bíblia King James Atualizada. São Paulo. Abba Press.2012.

BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo. Editora Vida.2012

CARSON, D.A. O comentário de Mateus. São Paulo. Shedd.2010.

Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. Volume 1. Mateus-Atos. Rio de Janeiro. CPAD. 2015

EARLE, Ralph; SANNER, A. Elwood; CHILDERS, Charles L. Comentário Bíblico Beacon: Volume 6. Rio de Janeiro.2016.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico: Novo Testamento – Mateus a João. Rio de Janeiro.CPAD.2012.

KEENER, Craig S. Comentário Histórico Cultural da Bíblia: Novo Testamento. São Paulo. Vida Nova. 2017.

LOCKYER, Herbert. Todas as Parábolas da Bíblia: Uma análise detalhada de todas as parábolas das Escrituras. São Paulo. Vida. 1999.

LOPES, Hernandes Dias. Mateus: Jesus, o rei dos reis. São Paulo. Hagnos. 2019.

MACARTHUR, John. As parábolas de Jesus comentadas por John MacArthur: os mistérios do Reino de Deus revelados nas histórias contadas pelo Salvador. Rio de Janeiro. Thomas Nelson Brasil. 2020.

MOODY. Comentário Bíblico: Volume 2. Mateus à Apocalipse. São Paulo. Editora Batista regular. 2010.

O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento, com recursos adicionais – A Palavra ao alcance de todos. Rio de Janeiro.2010

SNODGRASS, Klyne. Compreendendo as Parábolas de Jesus. Rio de Janeiro. CPAD. 2017.

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Volume I. Santo André. Geográfica, 2012.

Agência IBGE Notícias. Censo 2010: número de católicos cai e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião. 29 jun. 2012. Disponível em < Censo 2010: número de católicos cai e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião | Agência de Notícias | IBGE> Acesso em: 19 jun.2021.

Folha de São Paulo. Cotidiano.  São Paulo ganha uma igreja por semana, e templos se espalham pelas periferias. 28 maio 2021. Disponível em <São Paulo ganha uma igreja por semana, e templos se espalham pelas periferias – 28/05/2021 – Cotidiano – Folha (uol.com.br)> Acesso em: 19 jun.2021.

Recanto das Letras. Série: a igreja brasileira. “A igreja cresce, mas de que jeito?” 09 set. 2019. Disponível em <SÉRIE: A IGREJA BRASILEIRA – “A IGREJA CRESCE, MAS DE QUE JEITO?” (recantodasletras.com.br)> Acesso em: 22 jun.2021

Mundo. Cristão. Menor parte dos evangélicos leem a Bíblia diariamente, diz pesquisa. 26 jul. 2019. Disponível em <Menor parte dos evangélicos leem a Bíblia diariamente, diz pesquisa (guiame.com.br)>. Acesso em: 26 jun. 2021

Gospel Mais. Evangélicos saltaram de 9% para 32% em  26 anos, dizem institutos de pesquisa; Confira gráficos. 09 nov.2017. Disponível em <Gráficos mostram crescimento dos evangélicos de 9 para 32 em 26 anos (gospelmais.com.br)> acesso em: 26 jun.2021.

Folha Gospel. Maioria dos cristãos não lê a Bíblia diariamente, revela pesquisa. 26 jul. 2019. Disponível em: <Maioria dos cristãos não lê a Bíblia diariamente, revela pesquisa | Folha Gospel>. Acesso em: 26 jun. 2021.

[1] Advogada, formada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Guarulhos – FIG, Pós graduada (especialização) em Processo Civil pela Escola Paulista da Magistratura, Assistente Jurídico do Tribunal de Justiça de São Paulo, Bacharelanda em Teologia pelo Seminário do Betel Brasileiro.

[2] Pindorama – site de jornalismo de dados

[3] São Paulo ganha uma igreja por semana, e templos se espalham pelas periferias – 28/05/2021 – Cotidiano – Folha (uol.com.br)

 [4] Patriarca da igreja primitiva

Deixe um comentário